Mundial, dia 16: Em defesa de William e Cédric, bons jogadores com má Imprensa

O que é possível é complementar William com um João Moutinho menos castigado fisicamente (descansou no último jogo) e outros dois futebolistas que rendam, finalmente, o que valem: Bernardo Silva e João Mário. Se isso acontecer, a seleção terá outro nível

Depois dos treinos oficiais, a corrida ao Mundial começa agora. Pelo caminho ficou a Alemanha, com o inevitável estrondo. De resto, todos os outros candidatos estão na grelha de partida, entre os quais Portugal, como era esperado.

O futebol português habituou-se a este nível porque tem jogadores de qualidade, um grande treinador, homem muito experiente e uma estrutura federativa com um perfil sem comparação com qualquer outra época. E é por isso, por estar(em) entre os melhores, que a pressão aumenta.

O percurso até agora pode resumir-se assim: a seleção de Portugal fez uma qualificação aceitável, num grupo difícil. Podia ter feito melhor, que seria ganhar o grupo e evitar aqueles momentos de angústia final contra o Irão, mas cumpriu o objetivo. E não se esqueça a sua principal qualidade, agora que começa a fase ‘a eliminar’: é uma equipa muito solidária, habituada a competir. Não é fácil, para qualquer adversário, derrotar a seleção nacional em 90 minutos – e a prova disso são os 17 jogos (7 vitórias, 10 empates) que leva sem perder em fases finais de grandes competições. Este é o maior contributo de Fernando Santos, o homem que dirigiu 15 destes 17 jogos (os outros dois foram com Paulo Bento, no Brasil’2014, depois da derrota com a Alemanha no jogo em que Pepe foi expulso).

Vamos agora, depois deste dia de descanso, sem jogos, encontrar uma equipa parecida com a nossa. O Uruguai não é só a dupla Suarez/Cavani. Foi a segunda classificada na qualificação da América do Sul. Só o Brasil fez melhor. Cavani, o ponta de lança do PSG, marcou dez golos, mais do que qualquer outro avançado.Trata-se de uma equipa muito combativa, segura, como demonstram os seus números até agora – três jogos, três vitórias, cinco golos marcados, nenhum sofrido.

Perante esta realidade, Portugal tem de mostrar o seu melhor jogo de equipa, que ainda não se viu neste Mundial. A partir de agora, a equipa precisa de mais do que golpes individuais de um jogador para seguir em frente. Não basta ter Ronaldo, ou poder contar com uma ‘trivela’ de génio de Quaresma. Precisa de consistência de jogo, aquela que se lhe viu no Europeu de França, há dois anos.

Para isto é essencial um bom rendimento dos homens do meio-campo, sendo que aí residem as maiores dúvidas na equipa.

Certo é que Fernando Santos não prescinde de William Carvalho. Aliás, não se percebe bem as desconfianças que se têm levantado em relação ao jogador. William é o que é, um futebolista cerebral, muito inteligente. Claro que o óptimo seria colocar a cabeça dele nos músculos de Pogba e ambos animados com a mobilidade e visão de Modric. Pois… Mas não é possível. O que é possível é complementar William com um João Moutinho menos castigado fisicamente (descansou no último jogo) e outros dois futebolistas que rendam, finalmente, o que valem: Bernardo Silva e João Mário. Se isso acontecer, a seleção terá outro nível.

Acredito que, desta vez, o companheiro de Cristiano Ronaldo seja Gonçalo Guedes, que tem a vantagem de ser mais móvel e está naquele ponto em que pode ‘explodir’ a qualquer momento. Guedes é um projeto de futebolista para, em plena maturidade, ficar ali algures entre Nani e Figo.

Olhando para a defesa, podemos estar tranquilos depois destes três jogos iniciais.

Rui Patrício tem jogado com a segurança habitual. Foi brilhante com Marrocos.

Na defesa tem havido algumas críticas e um alvo especial, Cédric. Também não entendo a razão. Cédric é um bom jogador também com má imprensa. Impôs-se na seleção depois de alguns anos de jogadores sofríveis naquele lugar. Houve um hiato desde Bosingwa. E, de repente, temos muitos laterais-direitos com qualidade: Ricardo Pereira (FC Porto/Leicester), João Cancelo (Juventus), Nélson Semedo (Barcelona) e… Diogo Dalot (FC Porto/Manchester United), até Ricardo Esgaio (Sp. Braga). O futuro será de competição forte entre todos eles, mas só por clubite muito aguda se pode dizer que Cédric não tem categoria para estar onde está. É um jogador fiável, que ataca bem, homem de equipa, que não jogou bem contra a Espanha mas recuperou pronto nos dois jogos seguintes. Depois é preciso não esquecer uma regra muito clara de Fernando Santos: para se jogar na seleção tem de se jogar com alguma regularidade no respetivo clube. E Semedo, por exemplo, é suplente de um jogador (Sergi Roberto) que nem sequer foi convocado para a seleção de Espanha (Lopetegui preferiu Odriozola, da Real Sociedad para suplente de Carvajal).

Até Raphael Guerreiro, que teve uma temporada marcada por lesões, tem estado melhor do que seria lógico esperar. Sofreu com Marrocos, mas aquele Amrabat seria tremendo para qualquer defesa naquela tarde. E, mesmo assim, Guerreiro controlou-o, sendo apontado por muitos analistas internacionais como um dos seis melhores defesas-esquerdo do Mundial.

Se até Pepe e José Fonte não mostram em campo a idade que está inscrita nos respetivos bilhetes de identidade, creio que podemos estar relativamente optimistas para o jogo com o Uruguai. É 50/50. Aliás, nesta fase só há um encontro com um favorito enorme, o Bélgica-Japão. Todos os outros vão ser muito suados.

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