Raposo de Lima: “Na banca, o caminho é a transformação”

O setor financeiro enfrenta grandes desafios, mas os bancos em Portugal têm condições para reagir e aproveitar a disrupção tecnológica, diz o gestor.

Cristina Bernardo

Entrou na IBM em 1992 e é presidente da unidade em Portugal da gigante tecnológica global desde 2012. Esta semana, António Raposo de Lima fez uma intervenção inicial e moderou um painel sobre o tema ‘Beyond Digitalization. Beyond Banking’ na Banking Summit, um evento organizado pela Associação Portuguesa de Bancos e a SIBS. Em entrevista, o gestor falou sobre os desafios da transformação digital, a necessidade da aposta na formação e a estratégia da IBM para este ano.

Como é que vê os desafios que o setor bancário enfrenta?
São grandes. Há essa confiança na banca portuguesa. É um modelo de referência avançado em muitos domínios junto das instituições europeias. É uma banca que esteve na linha da frente em termos de incorporação destas componentes digitais, com a desmaterialização de canais. A abordagem omnicanal é hoje, claramente, com a mobilidade associada, uma realidade na nossa banca. A transformação tecnológica tem sido acelerada e por isso, hoje, há toda essa confiança, recursos que têm sido formados nesse domínio.
Acredito que a nossa banca terá todas as condições para endereçar estes novos desafios. Estamos a passar por um processo de consolidação acelerado, mas que não é exclusivo de Portugal. Nós assistimos a esse processo em Espanha e mais recentemente, na Austrália, temos também um mercado muito parecido com o nosso. Este novo desafio resulta da disrupção que vem pelo domínio da tecnologia, da regulação e da exigência dos clientes. Qual é o caminho a seguir? O da transformação. Cada entidade tem de seguir o seu para manter e desenvolver os seus clientes. Têm na sua posse os dados, têm de os transformar em conhecimento e em novos mecanismos inovadores, em ecossistemas mais integrados, no domínio da educação, da economia, recorrendo a mecanismos de seguros, ao turismo.

Quais são as ferramentas tecnológicas que os bancos estão a usar ou que poderão vir a fazê-lo?
Noto uma clara adoção, uma fase piloto e de transformação em domínio produtivo, do cognitive banking – a aplicação de mecanismos e de ferramentas que permitam criar experiências personalizadas com clientes, em particular em chat bots e RBA [robot business applications]. Estamos numa fase de maturação destas experiências e de incorporação nos sistemas aplicacionais dos bancos. Há um domínio em que temos de recuperar algum terreno, o do blockchain. É claramente um game changer e virá reforçar esta nova forma de ver os serviços financeiros, que, por questões de regulação e globalização, poderão vir a ser prestados a partir de qualquer entidade fora do sistema bancário com alguma facilidade. Há um caminho a percorrer ainda.

Que serviços estão os bancos a pedir? O que é que a IBM está a desenvolver com vista a essas necessidades?
É muito grande o nosso envolvimento. A IBM é a empresa por excelência da inovação. Não só porque registou um máximo de patentes – pelo 25º ano consecutivo registámos um recorde, mais de nove mil patentes -, mas pelo que vamos fazer, juntamente com os nossos clientes, nesse domínio de research, onde cada vez estamos a registar mais de metade dessas patentes. A Inteligência Artificial (IA), o blockchain, a cloud, security analytics são temas onde estamos a apostar todas as nossas fichas. A capacidade que temos de transformar estas descobertas em inovação aplicada é o nosso ADN. Enquadra-se muito bem com a banca porque é claramente um setor que vai na linha da frente na aplicação destas tecnologias. Hoje em dia, temos alguns bancos que começam a dizer que são mais tecnológicas com vertentes financeiras do que propriamente empresas financeiras com componentes tecnológicas. Estamos nesta fronteira.
A IBM é um parceiro de excelência dos nossos clientes do setor financeiro. As áreas nas quais temos vindo a apostar claramente são os sistemas analíticos, big data, poder tirar experiências, delações, correlações, padrões de comportamentos dos clientes e antecipar-se com mecanismos de retenção. Na cloud híbrida, em que transformamos infraestruturas legacy em infraestruras adequadas, mais variáveis àquilo que são as necessidades do negócio, todos os bancos estão nesse caminho. De acordo com as projeções que temos, os bancos são provavelmente dos setores que mais dados têm disponíveis no nosso planeta, sobretudo não estruturados. São uma oportunidade ótima de monetização em relação ao futuro da sua atividade, mas pouco mais do que 5% estão encriptografados. Há aqui um risco e uma oportunidade de trabalhar no domínio da segurança. Se, por um lado, do ponto de vista da regulação, temos abertura para aquilo que se designa de open banking e poder facilitar, motivar e estimular o aparecimento de outros players fora do setor [PSD2], por outro lado, há uma aparente contradição com o tema da proteção dos dados. O que estamos a fazer é ajudar os nossos clientes a terem o seu sistema operacional cada vez mais seguro.

Em que ponto se encontra a parceria com a SIBS?
Está muito bem. Estamos a executar um plano e a concluir a primeira fase do projeto. Até ao final do mês de março teremos a primeira versão em condições de ser comercializada e depois virá a segunda versão. Em conjunto, estamos a incorporar novos mecanismos e ferramentas analíticas e cognitivas baseadas em APIs do Watson. É uma solução de paywatch de que a SIBS já dispõe hoje, extraordinária até pelos resultados que tem obtido. Portugal, através da SIBS, tem registos de perto de um quarto de fraudes em relação àquilo que é a média europeia. Os sistemas cognitivos precisam de informação, de históricos. São como as crianças para aprenderem. E têm algoritmos que se ajustam e aprendem por si só. A informação que a SIBS tem, o histórico e os conhecimentos que têm os especialistas e cientistas de dados da própria SIBS serão a base dos algoritmos que a IBM está a trazer, com as tais componentes do Watson, que vão permitir ter este upgrade do serviço. Irá estar disponível para a banca e também para setores afluentes e complementares. Os pagamentos não são exclusivos da banca. Há o retalho também, uma cadeia muito alargada.

Quando se fala em transformação digital, em geral, pensa-se na banca de retalho. Como é que a IA está a ser utilizada na banca de investimento? Como é que Portugal pode usar a tecnologia para ganhar quota de mercado neste segmento?
É uma oportunidade. Nós temos bancos portugueses que atuam num mercado mais alargado. Não vemos muito a questão de serem bancos portugueses, espanhóis, americanos. Temos boas parcerias com o Barclays e com Lloyds Bank. Reforçámos recentemente um acordo de mais de 1,5 biliões de euros com o Lloyds Bank na lógica de transformação digital. O que é que procuramos fazer aqui em Portugal? Trazer as best practices DBM com clientes e exportar. É o que temos feito. Portugal é um earlier adopter da tecnologia aplicada e somos claramente uma comunidade que cumpre, que tem credibilidade, que dá confiança. Somos rápidos a testar. Todos os bancos com os quais estamos envolvidos – uns mais do que outros – estão a procurar acelerar a estratégia digital. A fase crítica da consolidação e da capitalização dos bancos estará em conclusão. Observo junto dos líderes das instituições uma prioridade de desenvolver a atividade e criar novas fontes de receita e ecossistemas onde a banca não tem estado tão desenvolvida.

Acha que estão a perder o conservadorismo?
Não sei. Estive recentemente em contacto com líderes de três instituições e o que vejo é que qualquer uma destas, para não falar de outras que estão em Espanha e que agora estão a operar em Portugal, consegue encontrar um equilíbrio entre o tradicionalismo e as novas oportunidades, que vêm por via da disrupção tecnológica. Apesar de tudo, estamos a falar de ativos de pessoas, e isso requer algum recato. Traduz-se na evolução de modelos operacionais. Muitas vezes, observamos que estes bancos mais tradicionais são capazes de criar plataformas baseadas em tecnologias, em parceiros, componentes industriais e setoriais, comunidades para prestar serviços financeiros e que não perdem o tradicionalismo, o recato e a relação sólida com clientes one-to-one ou numa lógica mais millennial de rede social.

Em termos de marketing, vemos os bancos a tentar conjugar a inovação e a velocidade, com as quais conseguem chegar a novos clientes com uma noção de segurança. Qual é o papel dela?
Acho que é central. Temos uma área de negócio de segurança e um laboratório. As nossas soluções estão muito centradas em tudo o que tem que ver com segurança. Registámos recentemente junto dos nossos clientes 35 mil milhões de potenciais incidentes de segurança por dia. O que é que isto quer dizer se juntarmos o facto de sermos uma economia e uma sociedade com cada vez mais dados disponíveis não-estruturados e que estão a circular? Há que ter uma atenção fundamental. Ajudamos os nossos clientes a evitar esse tipo de exposição. Está inerente a toda a atividade que fazemos hoje.