“Não queremos mais saídas da União Europeia”

A embaixadora britânica em Portugal está otimista quanto ao futuro do Reino Unido e da Europa, depois das negociações para o Brexit. “Seria um erro pensar num acordo punitivo”, avisa a diplomata.

Kirsty Hayes recebe o Jornal Económico na residência oficial em Lisboa e, num português fluente, aborda as questões mais complexas que o Brexit traz. A embaixadora continua a acreditar numa União Europeia bem sucedida.

Como vê a economia do Reino Unido em 2020, uma vez concretizado o processo de desvinculação da União Europeia?

Depende muito do acordo final que conseguirmos com os outros membros da UE. Queremos um acordo muito ambicioso, em termos de livre circulação de bens e serviços, pois ajudaria ambas as partes. Mas há um grau de incerteza porque a negociação ainda não começou. A primeira-ministra, Theresa May, já deixou muito claro que vamos tentar um acordo ambicioso, mas que não vamos continuar no mercado único. Vamos ver. Uma coisa é certa: a economia britânica está num momento muito positivo. Estamos a crescer rapidamente, temos a taxa de desemprego mais baixa da nossa história. Depois do referendo continuámos a receber investimentos significativos, o que mostra as vantagens fundamentais da nossa economia. Estou otimista, mas ainda há detalhes para perceber.

Londres é um grande centro de serviços financeiros. O principal risco não é a saída dessas empresas do Reino Unido?

Pensamos que não. Londres vai continuar a ter muitas vantagens para as empresas. É um centro de talentos, com uma infraestrura muito apropriada para essas atividades. E a City é uma vantagem não apenas para o Reino Unido, mas para a UE em geral. Se houvesse empresas a decidir sair da City, seria mais provável que fossem para Nova Iorque e Singapura do que Frankfurt. Partilhamos com os nossos parceiros europeus o interesse em manter a City como um centro financeiro europeu. Estou otimista quanto às possibilidades de encontrarmos uma opção construtiva também nesta área.

E no setor automóvel?Falou-se no risco de deslocalização de multinacionais.

O que observámos nos meses após o referendo foi a entrada de novos investimentos quer na área financeira, quer na área automóvel, como a Nissan. Precisamos de continuar a observar, mas atualmente a situação no Reino Unido é muito calma. Falei com investidores portugueses, que é uma comunidade importante para nós, e a esmagadora maioria mostra-se muito calma. Talvez com algumas preocupações específicas, mas não estão a reconsiderar a posição delas no mercado britânico.

O relacionamento entre os dois países pode ser afetado de alguma forma?

Temos este relacionamento tão antigo – o mais antigo do mundo, que já dura há séculos –, que tenho a certeza de que vai continuar. O primeiro-ministro português disse exatamente isso. Temos muitas indicações – no âmbito económico, pessoal, cultural, científico – de que uma relação forte no futuro é quase uma certeza.

O que diria a um empresário português que trabalha com o Reino Unido para que continue a apostar naquele mercado?

O mercado britânico vai continuar muito atrativo para as empresas portuguesas. Antes do referendo fizemos uma sondagem sobre os fatores mais importantes para os nossos investidores. E um deles foi o nosso nível de regulamentação, que é muito claro e fácil de entender. Os nossos impostos são atrativos para as empresas. A cultura, o facto de estar num centro e o fuso horário são também muito importantes. Depois do referendo não houve nenhuma catástrofe ou crise. Claro que ainda não saímos, mas penso que tudo vai continuar muito calmo.

O presidente da Comissão Europeia fez questão de frisar que as negociações do Brexit iriam ser “muito, muito, muito difíceis”. Há uma espécie de retaliação da UE face ao resultado do referendo?

Espero que não. Concordo inteiramente que vão ser difíceis, simplesmente porque negociações comerciais são sempre difíceis, cada país tem os seus interesses. Mas espero que o desfecho não seja negativo. Ouvimos algumas pessoas falar sobre um acordo punitivo para o Reino Unido, mas pensar dessa forma seria um erro enorme para a UE. Fico muito contente por saber que esse não é o sentimento português. O Governo é muito claro sobre isso.

Mas admite que na hierarquia europeia há um sentimento de desagrado face ao referendo, que contamina as relações institucionais?

Não em termos das relações bilaterais entre Portugal e Reino Unido. Ouvi apenas algumas preocupações sobre o próprio futuro da UE se outros países decidirem fazer um referendo sobre a saída da União. Mas nós continuamos muito empenhados na ideia de uma União Europeia forte. É muito importante para nós que a UE tenha sucesso. Depois da nossa saída, não queremos mais saídas. Esta foi uma decisão muito nacional. A situação britânica e as vontades do povo britânico eram muito específicas. Continuo a acreditar que a UE pode ter um futuro muito positivo.

Um passo natural será a aproximação aos Estados Unidos e Theresa May foi a primeira líder a ser recebida pelo novo Presidente americano. É possível estabelecer esta relação apesar de todas as polémicas de Donald Trump?

É inteiramente normal que a primeira-ministra britânica tenha sido a primeira a ser recebida, devido ao relacionamento especial com os Estados Unidos durante muitos anos. A reunião foi muito positiva, mas Theresa May também frisou algumas áreas onde há diferenças fundamentais com o Presidente Trump. Entre amigos é normal falarmos nas diferenças e nas áreas mais fáceis. Mas, para nós, não há uma escolha entre as relações com os EUA e a UE. Ambas vão continuar a ser fundamentais.

Na questão da NATO, Donald Trump exige que os países-membros contribuam mais para a organização. Qual será a posição do Reino Unido?

A NATO é uma prioridade enorme para nós. Entendo as preocupações do Presidente Trump, é uma questão muito importate. Na cimeira da NATO no País de Gales, em 2014, tentámos encorajar os membros a fazer compromissos nesta área. Para ter uma abordagem partilhada, temos também de partilhar os custos. No caso de Portugal é muito positivo que, apesar das pressões orçamentais, se tenha aumentado o nível investimento. Ainda está um pouco longe do objetivo de 2% do PIB, mas o caminho é o correto. Esta meta precisa de ser real e não hipotética.

Depois do referendo, Theresa May fez contactos com os EUA e a Turquia, e elogios ao presidente chinês. O Reino Unido está a tentar contornar a UE e a diversificar os mercados?

Claro que depois do Brexit vamos precisar de novos acordos, com novos parceiros. Vamos diversificar. Não estamos a considerar alternativas em termos de ou China ou Estados Unidos, ou União Europeia ou EUA. Reconhecemos que a UE é não só um parceiro importante em termos de valores, mas também o nosso parceiro mais importante em termos comerciais. E pretendemos continuar a fortalecer esta ligação. O que queremos é ter laços muito fortes com numerosos países.

A primeira-ministra admitiu que poderia baixar os impostos para atrair mais empresas. Faz sentido o Reino Unido tornar-se um paraíso fiscal?

O que a primeira-ministra disse foi o seguinte: o nosso caminho preferido, e no qual temos muita esperança, é encontrar um novo acordo com a União Europeia que seja muito positivo para ambos os lados. Mas se tal não for possível, por qualquer razão, temos muitas possibilidades para continuar a crescer. Claro que, nessa situação, consideraremos todas as opções. Mas vamos continuar empenhados em ter um sistema global que seja justo para todos. Durante os últimos anos temos tido uma posição de liderança no que respeita à justiça fiscal. David Cameron fez muitos esforços para encorajar o próprio Reino Unido e outros países a terem uma posição muito correta e justa. Atualmente já somos muito competitivos, não apenas em termos de impostos mas também na regulação, que é muito simples e clara para as empresas.

No Brexit há uma questão muito delicada: a Escócia. Faz sentido um segundo referendo à independência?

O referendo escocês ainda é muito recente e o resultado foi bastante claro. Aliás, naquela altura já era claro que poderia haver um referendo europeu no Reino Unido. Não faz sentido fazer mais um referendo na Escócia. É importante respeitar que a maioria das pessoas na Escócia votaram para ficar.

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