Naruhito: Um imperador nascido depois de Hiroxima

O novo chefe de Estado do Japão é o primeiro a não ter vivido a derrota na Segunda Guerra Mundial e dele se aguardam mudanças tranquilas na monarquia mais antiga que existe no Mundo.

EPA/JIJI PRESS JAPAN

A tradição falou mais alto em Tóquio e Naruhito recebeu nesta quarta-feira a espada, a joia e os selos reais que fazem dele o 126.º imperador do Japão, aos 59 anos, sem que a mulher pudesse estar presente na cerimónia e sem perspetivas de que a única filha do casal possa um dia suceder-lhe. Ainda assim, a subida ao poder do filho de Akihito, que se tornou o primeiro monarca da mais antiga casa real a abdicar em mais de dois séculos, alegando problemas de saúde decorrentes dos seus 85 anos, acarreta um simbolismo que faz acreditar em mudanças tranquilas no país asiático.

Para início de conversa, Naruhito é o primeiro imperador nascido após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, marcada pelas bombas atómicas que aniquilaram as cidades de Hiroxima e Nagasáqui, pela ocupação do país por potências estrangeiras, pelo julgamento dos crimes de guerra e condenação à morte de líderes políticos e militares, e pela perda de estatuto de Hirohito, avô do novo monarca, que só pôde continuar a liderar o país até 1989 ao deixar de ser considerado um deus vivo. Sem amarras que o prendam às feridas do passado que durante décadas lançaram sombras sobre as relações do Japão com os vizinhos, o novo ocupante do trono de crisântemo tem credenciais não menos do que inéditas.

Afinal, Naruhito é o primeiro imperador japonês a ter estudado no estrangeiro. Fascinado por Geografia, rumou a Inglaterra para matricular-se na Universidade de Oxford, onde escreveu a tese “Um Estudo da Navegação e do Tráfego no_Alto Tamisa no Século XVIII”,  entregue em 1989. Desde cedo interessado em História dos Transportes, o agora monarca, que descreve as estradas como meios para aceder a mundos desconhecidos, aproveitou a liberdade concedida pelo pai, o então príncipe herdeiro Akihito – que se encarregou da sua educação, juntamente com a mulher, Michiko, em vez de deixar a tarefa aos criados do palácio -, capaz de o incitar a passar uma temporada na cidade australiana de Melbourne durante a adolescência para melhorar o domínio da língua inglesa.

Talvez inspirado pelas resistências que a sua mãe enfrentou – não só era plebeia como provinha de uma família católica -, Naruhito casou-se com uma diplomata de carreira formada em Harvard, ainda que Masako tenha abandonado o trabalho ao ceder aos insistentes avanços de quem não desistia de querer ser seu marido. Casaram-se em 1986, mas só em 2003 asseguraram descendência, embora a princesa Aiko seja excluída da linha de sucessão (onde agora se encontra o tio e um primo de 12 anos), justamente por ter nascido mulher. Esse problema, e a pressão para assegurar um herdeiro para a casa real mais antiga do Mundo, chegando a sofrer um aborto antes de ver nascer a filha, levam a que a nova imperatriz combata uma depressão há quase duas décadas.

Tem contado sempre com apoio do marido, descrito por quem o conhece como um homem cordato e simpático, muito preocupado com questões ambientalistas – nomeadamente a conservação dos recursos hídricos – e assaz competente a tocar viola. Ainda que dificilmente vá ter tempo para música, pois entre as prioridades da era “Reiwa”, que a tradição diz ser marcada pela harmonia, encontra-se a aproximação da monarquia aos súbditos. “Quero cumprir os meus deveres, estando sempre próximo das pessoas e partilhando as suas alegrias e tristezas”, disse, meses antes de subir ao trono. Na quarta-feira, já imperador, deixou juras de empenho na “unidade do povo do Japão”.

Outra preocupação tem a ver com a contenção de derivas militaristas e de revisionismo histórico. Há quatro anos deixou claro o que pensava: “Eu não vivi a guerra. Mas penso que se torna importante, à medida que as memórias se dissipam, encarar o passado com humildade e fazer passar de forma correta as experiências trágicas testemunhadas pela geração que viveu a guerra para as gerações que não têm conhecimento direto.”

Artigo publicado na edição nº 1987 de 3 de maio, do Jornal Económico

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