O apelo dos 22 deputados

Esta Carta/Apelo é reveladora do sectarismo de alguma esquerda portuguesa, para quem a Justiça é boa quando investiga pessoas de direita e se torna altamente suspeita quando dedica atenção a algum “camarada”.

Há coisas de que gosto na Carta/Apelo enviada por 22 deputados da “geringonça” ao Supremo Tribunal Federal do Brasil. A primeira é ver Lula da Silva ser tratado por “Presidente”. Também eu sou um defensor dessa bonita tradição anglo-saxónica. Uma vez Presidente, para sempre Presidente. No que me diz respeito, nunca consegui falar com nenhum dos nossos ex-Presidentes sem o tratar dessa forma. Por isso, vejo com agrado que Isabel Moreira e Joana Mortágua, entre outras e outros, não se esqueçam que Lula foi Presidente do Brasil, mesmo que, entretanto, já tenha havido mais dois, a Presidente Dilma e o Presidente Temer. Reforça-me a certeza de que os nossos deputados saberão exercitar por cá o respeito devido, a começar quando se trate do Presidente Cavaco, o nosso mais próximo.

Outra coisa de que gostei muito foi de ter percebido que qualquer relação entre o timing desta Carta/Apelo e o golpe tentado no Brasil pelo Juiz Rogério Fraveto foi pura coincidência. Não tivesse sido assim e a cartinha não deixaria de referir o caricato episódio com que este Desembargador, uma espécie de Rui Rangel à moda do Brasil, tentou tirar da cadeia o Presidente Lula  (lá estou eu a exercitar o meu respeito) num monumento ao despudor. Eu lembro: Fraveto foi filiado no Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1991 e 2010; em 2011, foi nomeado para o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) pela Presidente Dilma; em 2016, foi o único membro da Corte Especial do TRF4 a votar pela abertura de processo disciplinar contra o Juiz Sergio Moro, que liderou a acusação contra o Presidente Lula; e, num riquíssimo percurso que demoraria a enunciar, trabalhou no primeiro governo do Presidente Lula com o conhecido lobista José Dirceu e com a Presidente Dilma quando esta era ainda Chefe (no Brasil diz-se “ministra”) da Casa Civil da presidência brasileira… Felizmente que por lá, como por cá quando Rui Rangel foi escalado para despachar na Operação Marquês, o Supremo Tribunal estava atento.

Sei que estes 22 deputados da geringonça apenas representam 9,5% dos deputados do Parlamento português e que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, se pronunciou com a pose institucional devida a um político com responsabilidades. Mas, desculpem-me, nem por isso fico descansado. Esta Carta/Apelo é reveladora do sectarismo de alguma esquerda portuguesa, para quem a Justiça é boa quando investiga pessoas de direita e se torna altamente suspeita quando dedica atenção a algum “camarada”. É isso que se me afigura terrível. Eles acreditam mesmo que Lula da Silva é uma “vítima” e se tornou “um preso político” apenas porque terá retirado “dezenas de milhões de brasileiros da miséria”.

Em nenhum momento estas almas se inquietam por um simples ex-operário ter conseguido acumular 9 milhões de reais em dinheiro (quase 2,5 milhões de euros) mais outros 1,5 milhões em imobiliário (fora o “triplex” do processo), que lhe foram congelados. Naquelas cabeças tudo é linear e explicável pelas opções político-partidárias. Já nem falo sobre o que isto representa quanto ao princípio da separação de poderes (grave, gravíssimo, é o que se está a passar na Polónia!) ou a alusão à sentença transitada em julgado, esse princípio bom que, mal utilizado em países dominados pelo compadrio das seitas e da corrupção, permite a algumas varas de criminosos andarem em férias pelo mundo driblando a Justiça.

Esta pobre gente pensa mesmo assim: a direita é má e corrupta, a esquerda é boa, feita de mulheres e homens puros, que por isto são perseguidos. É uma herança da revolução dos sovietes e a nova versão da história da carochinha. Já não há paciência!

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