O ‘cash’, o Brasil e o solar: o futuro da Galp Energia num dia cinzento

O dia em Londres estava (sem grande surpresa) cinzento, e a reação dos mercados e da maioria dos analistas às notícias que a Galp apresentou na capital britânica esta terça-feira foi semelhante: neutra e sem grande ânimo.

A petrolífera portuguesa iniciou esta terça-feira com notícias positivas: o lucro líquido ajustado disparou 25% em 2017 para 602 milhões de euros, com o suporte de aumentos nas produção e no preço médio do petróleo a ajudar a superar as expetativas dos analistas.

Passados alguns minutos, a apresentação do Capital Markets Day trazia mais boas novas, nomeadamente um aumento de 10% no dividendo a pagar pelo exercício de 2017, levantando o valor a pagar por ação para os 0,55 euros, face aos 0,50 euros apresentados no ano anterior.

Os resultados positivos de 2017 permitiram à empresa atingir o marco de free cash flow positivo antes do previsto e melhorar a remuneração acionista.  No entanto, apesar de ter apresentado  duas notícias positivas, as ações da Galp abriram em forte queda e tocaram em minímos de quatro meses.

A reação indicava que os investidores estavam a dar menos importância aos resultados e ao dividendo do que à desilusão sobre o investimento, que vai ficar em média nos 1.000 milhões por ano, enquanto no plano apresentado no ano passado a estimativa era entre esse valor e 1.200 milhões. Além disso, os traders salientavam que a Galp projecta uma subida de até 20% da produção média de petróleo em 2018, desacelerando face à expansão de 38% para 93,4 milhares de barris por dia em 2017.

Os títulos da petrolífera acabaram por fechar a sessão a recuar 0,14%. Pelo meio, Carlos Gomes da Silva, CEO da empresa, e outros membros da comissão executiva explicavam aos analistas e aos jornalistas o raciocínio por trás da estratégia.

“A mensagem de hoje é que nós estamos numa inversão de ciclo de geração de caixa, num momento de crescimento que nos vai levar a crescer seja em termos de cash flow from operations acima de 10%, a produção acima de 15%, o EBITDA a subir entre 15% e 20% nos próximos três anos, e que nos levará a um free cash flow [fluxo de caixa livre] acima de 1.000 milhões de euros antes de dividendos até 2020”, resumiu Gomes da Silva.

Viragem no cash

O momento de viragem em termos de cash impõe um dilema sobre o que fazer com essa liquidez. Os gestores da Galp indicavam que a solução tem de ser a seguinte: remunerar melhor os acionistas, embora mantendo a disciplina financeira; reinvestir para extrair mais valor dos recursos existentes e ficar de um olho posto em novas oportunidades.

Este último aspeto tem de ser lidado com muito rigor,  até porque a empresa tem como meta que todos os investimentos tenham um retorno médio sobre o capital empregue (ROACE, na sigla em inglês), de 15%.

“Estamos a preparar hoje o novo ciclo de crescimento que acontecerá durante a década de 20, isto com base em termos orgânicos. O que apresentamos hoje não é sobre desejos e ambições que não são materializáveis. Antes pelo contrário, depende mais de nós e não de andarmos a fazer compras ou de fazer operações de M&A”, vincou Gomes da Silva

A haver crescimento inorgânico, será provavelmente no Brasil, que é o grande motor de resultados e de investimento da Galp. Gomes da Silva salientou que “no Brasil há muitas oportunidade para crescimento inorgânico” e que a Galp vai participar em duas rondas de licenciamento programadas para março e junho deste ano, tentando capitalizar no conhecimento e parcerias que foi construindo ao longo dos anos.

Os analistas elogiaram o aumento do dividendo e geração de caixa mas alguns ficaram desiludidos com o guidance sobre o Capex. Em termos de investimento, a Galp propõe Capex de 1.000 a 1.100 milhões de euros este ano. Em média a empresa deverá investir 1.000 milhões de euros por ano entre 2018 e 2020, o mesmo valor que foi atingido no ano passado.

Na opinião dos analistas da Societe Generale, a meta de atingir free cash flow de 1.000 milhões de euros em 2020 parece “um bocado ambiciosa”. Adiantaram que os cálculos da Galp tem subjacente “um aumento material nas margens de refinação que é difícil de justificar”. A petrolífera estima uma margem de refinação benchmark de 4,3 dólares por barril, ligeiramente acima dos 4,2 dólares de 2017, quando beneficiou de eventos excepcionais como os furações nos EUA. O Societe Generale prevê uma margem de 3,2 dólares por barril, o que aplicado à analise de sensibilidade da Galp, retiraria 70 milhões de euros ao free cash flow.

A quebra no ritmo do aumento da produção também foi algo de críticas.  Segundo Steven Santos, gestor no BiG – Banco de Investimento Global,  “o anúncio sobre uma desaceleração da produção média de petróleo em 2018, ao mesmo tempo que pretende apostar na energia solar, pode ter desiludido os investidores”.

Solar à vista

O negócio ‘core’ da Galp  vai continuar a ser o petróleo e o gás, mas a empresa já tem os olhos posto em novos negócios que tenham emissões de carbono mais baixas. Na apresentação, a empresa anunciou que quer alocar 5% a 15% do investimento a este tipo de negócios.

Sem oferecer muitos detalhes nesta fase, Carlos Gomes da Silva explicou aos jornalistas as linhas gerais da estratégia para a produção de energia renovável. “O Galp está a fazer é procurar soluções alternativas, oportunidades para fazer isto de forma progressiva e faseada, que oscilará entre os 5% e os 15% do investimento, numa estratégia que será acelerada a partir da final da década”.

O CEO adiantou que a Península Ibérica será o foco natural para este tipo de projetos, pois é uma região na qual a empresa já tem uma base de clientes importante e porque é uma geografia que tem mais horas de luz anual no mundo. “Portanto é onde as renováveis de base solar, que é do que estamos a falar, têm maior rentabilidade e onde as eficiências serão maiores”.

Sublinhou ainda que “está se a abrir uma nova janela, que é compatível com a nossa abordagem de negócio que é de trabalhar em concorrência pura, aberta e livre, ou seja, em base de mercado”.

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