O centenário do Armistício e as lições não aprendidas

A participação nacional na Grande Guerra não encheu de lustre as páginas da história militar portuguesa. Bem pelo contrário. Importa perceber porquê.

Comemorou-se recentemente o centenário do Armistício que levou ao fim da Primeira Guerra Mundial. A ocasião serviu para homenagear os que participaram e caíram ao serviço da Pátria naquela guerra estúpida e inútil. Serviu o evento para mitigar os efeitos negativos produzidos pelos recentes acontecimentos na imagem pública das Forças Armadas. Em boa hora foi gizada a ideia.

À semelhança das operações de paz do pós-Guerra Fria, também nessa altura os soldados portugueses foram um instrumento da política externa do Estado. Sem que aquela guerra representasse uma ameaça direta ao território nacional (excetuando em África), o interesse nacional foi defendido para além da nossa fronteira terrestre. A participação de Portugal naquela que também é conhecida como a Grande Guerra visava afirmar politicamente a jovem República no seio de uma Europa esmagadoramente monárquica e preservar o Império. Perversamente, iria criar as condições sociais e políticas para o golpe militar de 1926.

Compreende-se a merecida exaltação do espírito patriótico e da bravura do soldado português que os políticos gostam de fazer nestas ocasiões e que cala tão bem na alma e no coração dos portugueses. Aplaude-se o apelo à autoestima nacional que estes momentos proporcionam. Contudo, essas exaltações não podem servir para escamotear ou branquear factos e responsabilidades.

A participação nacional na Grande Guerra não encheu de lustre as páginas da história militar portuguesa. Bem pelo contrário. Importa perceber porquê. Em grande parte porque os nossos soldados foram enviados para as frentes de batalha insuficientemente preparados, sem equipamento e armamento adequados, situação resultante do ostracismo a que as Forças Armadas já nessa época eram votadas pelas elites políticas, o que se veio a revelar uma constante ao longo do último século.

As dificuldades em que se encontravam as Forças Armadas para enfrentarem os desafios da Grande Guerra iriam repetir-se noutras circunstâncias históricas: no início da guerra em África e nas missões de paz do pós-Guerra Fria. O início da guerra em África veio encontrar as Forças Armadas numa situação análoga: impreparadas e sem meios para travar aquela guerra.

Não tivesse sido o primeiro contingente destacado para a Bósnia, em 1996, constituído por paraquedistas, recentemente integrados no Exército, que dispunham de um equipamento mais evoluído, e o contingente português teria corrido o risco de se confundir com um do terceiro mundo. Nesse destacamento foram empregues as vetustas Chaimites inadaptadas àquele teatro de operações.

Embaraços semelhantes ocorreram quando a GNR foi destacada para o Iraque e as Forças Armadas para o Afeganistão. No primeiro caso, pediram-se emprestadas viaturas blindadas à Itália, e no segundo alugaram-se à Espanha e mais tarde aos EUA. Algumas das viaturas enviadas para o teatro de operações ou não tinham blindagem ou a que tinha era insuficiente, tudo isto consequência de leis da Programação Militar eunucas. O Exército português é dos muito poucos da NATO que não dispõe de viaturas “Mine-Resistance”, mas, naturalmente, o tema não se esgota nestas curtas considerações.

Passados cem anos parece ter-se aprendido muito pouco. As Forças Armadas continuam a operar com graves limitações. Preside o improviso, o casuísmo e uma completa falta de visão. E nestas matérias o problema não reside nas lideranças militares.

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