O Estado e o Jornalismo

O que pode fazer o Estado para ajudar a Comunicação Social a sair da crise? A questão lançada pelo Presidente da República é pertinente. De facto, o Estado pode fazer muitas coisas para ajudar os jornalistas a fazerem o seu trabalho.

Uma delas é proteger os direitos de autor face a quem ganha dinheiro com os conteúdos produzidos pela comunicação social: por exemplo, há agências de clipping que faturam milhões de euros em Portugal sem que os jornais recebam um cêntimo. E entidades públicas que pagam pelo clipping, em vez de assinarem jornais e revistas (ver notícia na página 12). O Estado pode também restaurar o porte pago e incentivar o investimento em media, através de benefícios fiscais atribuídos de forma “cega”. Mas pagar subsídios aos grupos de comunicação social não deve ser uma dessas medidas.

É curioso que o setor está em crise há mais de 15 anos, mas só agora Marcelo se lembre de falar do assunto, numa altura em que a Ceifeira se acerca perigosamente de alguns grandes grupos de media. Nas últimas décadas, desapareceram órgãos como “Diário de Lisboa”, “A Capital”, o “Independente”, o “Tal & Qual”, a “Focus”, o “Semanário”, “O Comércio do Porto”, o “Primeiro de Janeiro”, o “24 Horas” e o “Diário Económico”, para além de inúmeras publicações locais e regionais, perante a gélida indiferença da mesma classe política que agora chora lágrimas de crocodilo, bem como da falta de solidariedade (para não dizer outra coisa) de muitos jornalistas de publicações ditas de “referência”. Mas agora que a crise bate à porta de alguns que outrora se julgavam intocáveis, aqui d’el rei que o jornalismo está a morrer. E, à falta de rei, chamem o Presidente para que seja o contribuinte a pagar!

O setor enfrenta, de facto, uma crise sem precedentes, com a falência do anterior modelo de negócio, devido ao surgimento de novas formas de consumir informação e à fuga de investimento publicitário para outras plataformas. Esta crise obrigou centenas de jornalistas a mudarem de profissão e os que permanecem trabalham muitas vezes em condições precárias, diminuindo a qualidade da informação. Mas o que é preferível, do ponto de vista do interesse público? Ter jornais bem financiados mas dependentes da boa vontade do poder político, arriscando perder a independência, ou jornais que vivem com tostões contados mas desempenham o seu papel de forma livre?

O certo é que, apesar das dificuldades, o setor continua a reiventar-se todos os dias e centenas de profissionais dão o seu melhor no desempenho da sua missão. E se é verdade que alguns jornais saem de cena, outros aparecem: nos últimos anos, nasceram três órgãos de alcance nacional em Portugal, em papel e online – “Observador”, Jornal Económico e “Eco”, por esta ordem -, para além de vários projetos de menor dimensão mas com muito interesse, como o “Fumaça” ou “O Corvo”. São órgãos com linhas editoriais muito distintas, mas que em comum têm o facto de serem menos dependentes do poder político, terem estruturas mais leves e  utilizarem as novas tecnologias para melhor chegarem aos seus leitores. O que verdadeiramente está a morrer não é, pois, o jornalismo, mas antes uma certa forma de operar neste setor. É o fim de uma era e, como sempre sucede, há quem fique para trás por não entender que o mundo mudou.

Termino com uma nota de esperança. Como outras no passado, esta crise será ultrapassada com a criação de novos modelos de negócio, que estarão assentes nas subscrições digitais e num regresso aos valores do jornalismo.  Num oceano de contra-informação e notícias falsas, os velhos princípios de independência, rigor e isenção serão, cada vez mais, vantagens competitivas para quem os levar a sério, pois sempre existirá necessidade de alguém que descubra, selecione e valide a informação, de modo a que os leitores possam tomar decisões conscientes. O nosso papel é este, não é dizer aos leitores o que devem pensar.

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