O estertor de Bruno Carvalho

O presidente do Sporting auto-destruiu-se em público. E o que pretende Jaime Marta Soares? Iniciar um processo que conduza a eleições? É o que fará sentido. Não deve esquecer-se de que presidente era, e será até ao fim, o único fiel depositário da legitimidade dos votos. Isso não é transferível

Começou a contagem decrescente para a saída de Bruno Carvalho da presidência do Sporting e foi ele próprio quem carregou no botão. É por exclusiva responsabilidade sua que até alguns dos mais indefectíveis apoiantes, pessoas que estiveram com ele no passado, se afastam, inclusive das fileiras dos órgãos sociais. Já não são apenas os sócios que Bruno Carvalho perseguiu e estigmatizou como “sportingados”. Ou antigos dirigentes a quem moveu processos e conseguiu expulsar da condição de sócio. Neste momento, a vaga de fundo cresce de todos os lados porque uma realidade se impõe de forma crua: o homem, ‘este’ homem, não tem condições para ser presidente do Sporting Clube de Portugal. Não estou a falar de condições culturais e de educação, que essas já estavam há muito ao alcance da análise de quem quisesse ver objetivamente e sem paixão. Estou a referir-me à loucura instalada.

Bruno de Carvalho estará, de certeza, a atravessar um mau momento – e só isso pode justificar as sucessivas garotadas que vai protagonizando: na perseguição aos jogadores, de quem agora diz ter imensas razões de queixa que ninguém conhece; na página pessoal no Facebook, que abre e fecha como um enamorado não correspondido depois de lancinantes e amargurados ‘posts’; nas conferências de imprensa, onde representa um papel patético e infantil; na relação com a comunicação social, que ora escorraça ora lhe serve de porto de abrigo para exorcizar os fantasmas.

Em apenas três dias, Bruno Carvalho delapidou os sucessivos votos de confiança dos sportinguistas, o último dos quais ainda bem recente.

E o balanço destas pouco mais de 72 horas é fácil de fazer. Apenas porque um jogo não correu bem à equipa, e a alguns jogadores especialmente, o presidente, a quem faltam resultados depois de cinco anos no cargo, decidiu ferir o brio profissional de todo o grupo para alijar responsabilidades e saiu isolado. Procurou virar os adeptos contra a equipa. No seguimento, os futebolistas agiram com a estabilidade que falta ao presidente. A crise tornou Jorge Jesus a referência do momento para o sportinguismo. No jogo com o Paços de Ferreira, a heterogénea assembleia do Alvalade XXI reconheceu tudo isto e levou o líder do clube, em desespero, a fragilizar-se mais e mais aos olhos de todos.

Estando Bruno Carvalho a caminho de ser passado, convém entender o presente.

Por exemplo: o que pretende Jaime Marta Soares? Iniciar um processo que conduza a eleições? Será o que faz sentido.

Ou pretende, apenas, afastar Bruno Carvalho para influenciar uma solução a partir de dentro? Se esse for o objetivo, deve estar condenado ao fracasso. O presidente era, e será até ao fim, o único fiel depositário da legitimidade dos votos. No dia em que sair, essa legitimidade fará parte do passado e não é transferível.

O presidente da mesa da assembleia geral deve ter bem presente esta realidade na condução do processo que certamente se irá iniciar agora, com novos conclaves à luz dos estatutos do clube e nos quais Bruno Carvalho procurará sobreviver no cargo.

Os tempos serão, também, de desafio a todos os calculismos.

O clube necessita de soluções e estas devem fazer refletir as pessoas com perfil e condições pessoais para protagonizarem projetos credíveis.

O essencial é perceber a razão pela qual Bruno Carvalho conquistou o clube: porque o Sporting estava a caminho da irrelevância desportiva. Começava a acomodar-se ao terceiro lugar em todas as vertentes e isso desesperava os adeptos. Bruno Carvalho surgiu como uma esperança e a verdade é que, porque o trabalho de reestruturação financeira pactada com os bancos estava (praticamente) fechado pela direção anterior, encontrou condições financeiras únicas para ter êxito. Andou para trás e para a frente, mas fez algumas coisas boas. Sobretudo, embora sem conseguir conquistar mais do que três troféus até ao momento no futebol, voltou a colocar o Sporting, qualitativamente, ao nível dos seus dois rivais. Convém que, nesta nova transição em perspetiva, os adeptos possam confiar em que este caminho não se inverterá, antes será perseguido de forma ainda mais competente. E – já com urgência – que o atual plantel do futebol, em consequência desta crise, não sangre de forma tão brutal como inevitavelmente sangrará se Bruno Carvalho não sair rapidamente, acabando com este deplorável estertor em que se consome publicamente.