O jornalismo, segundo eles

No mundo ideal de Isabel Moreira e Sócrates, a “Acção Socialista”, reforçada com alguns ilustres representantes do jornalismo dito de “referência”, ativistas políticos, repórteres-Google e cronistas de vacuidades sofridas, bastaria para conduzir o rebanho.

Nos últimos dias, o jornalismo mereceu a visita de dois ilustres vultos da política portuguesa, quiçá mesmo da cultura: Isabel Moreira, primeiro; José Sócrates, depois.

Isabel Moreira, colunista regular do “Expresso”, cravou as unhas no “Correio da Manhã” e no “Observador”, principalmente, mas não explicou porquê. Ficamos, apenas, a saber que  o segundo sofre de um “reacionarismo que quer ver sentado na AR” e o primeiro “dedica o tempo a fomentar o populismo, o ódio à classe política, a normalização do crime da quebra do segredo de justiça, o sexismo, os vários ‘ismos'” e que já “está a colonizar os órgãos de comunicação social e a imprensa que se tinha por ‘séria'”.

É aliás nesse “pasquim”, segundo a simpática classificação da deputada do PS, que colaboram “escribas como Assunção Cristas (…) porque entre ser cúmplice de um meio criminoso e ganhar uns votos, escolhem a segunda opção”. Repare-se, aliás, como a adversativa iliba a presidente do CDS dos desmandos que Isabel Moreira lhe pretenderia imputar; o que prova que o destino se revelou avisado quando optou por desviar a agora deputada de um confessado fascínio juvenil pela atividade jornalística. Assim sendo, a única coisa que os amigos devem revelar a Isabel Moreira é que entre os tais “escribas” que assinaram colunas no “CM” nos últimos anos estão figuras tão notáveis como o atual primeiro-ministro, António Costa…

José Sócrates, não tendo poiso regular, decidiu desta vez boicotar a TSF e o DN e enviou uma parábola, transformada em artigo de opinião, teoricamente sobre o Brasil, à consideração do JN. O texto é muito mais fácil de desvendar do que um sermão do Padre António Vieira. Substituindo “Lava Jato” por “Operação Marquês”; Sérgio Moro por Carlos Alexandre; PT por PS; polícia federal por procuradores da República e Lula e Dilma por Sócrates e Vara, entre outras equivalências, chega-se a uma conclusão: “a política e a justiça (…) têm muito em que pensar. O jornalismo também” (…), já que expõe em público a sua “promíscua relação com o Mundo, mais propriamente um submundo, da justiça”.

Assim. Tanto Isabel Moreira como José Sócrates insistem em escrever Justiça com minúscula – o que nos vai dando, ainda, alguma tranquilidade. Já agora: faço ideia da gargalhada que para aí vai, sobretudo entre os soldados prussianos que se habituaram à alcunha de jornalistas.

Entendamo-nos: o jornalismo tem todos os defeitos comuns a qualquer outra atividade da sociedade portuguesa. Nem mais nem menos. Comete erros e merece críticas. Mas se alguma coisa se pode dizer é que tem melhorado imenso nos últimos anos. Se excetuarmos o colaboracionismo evidente de alguns decadentes títulos, que o mercado vai castigando sem piedade nem apreço pela História, o setor está hoje muito melhor. Aparecem novos projetos, pequenos e focados, procurando um modelo de negócio saudável –  e há sobretudo uma nova geração de jornalistas que volta a ter o gosto pela notícia, pelos factos.

É isto que irrita o sistema de que Isabel Moreira e José Sócrates fazem parte. No mundo ideal deles, a “Acção Socialista”, reforçada com alguns ilustres representantes do jornalismo dito de “referência”, repórteres-Google, ativistas políticos e cronistas de vacuidades sofridas, bastaria para conduzir o rebanho. Uma poderia pintar as unhas tranquilamente no local de trabalho, ou fazer figuras tristes, sem ser incomodada. O outro poderia continuar a viver no mundo perfeito de dinheiro e amigos. Realmente, vistas as coisas assim, maldito jornalismo. E maldita Democracia, que o permite.

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