O nome é Merkel, Angela Merkel

Com o seu pragmatismo, Merkel deu um contributo único para a estabilidade europeia no período atribulado que atravessámos, e que ainda não acabou. Dizia o Financial Times que a Europa vai sentir a falta dela.

Esta foi a semana das eleições americanas de meio de mandato, que se saldaram na perda pelos republicanos do controlo da Câmara dos Representantes, apesar de manterem a sua maioria no Senado. Porém, Trump tweetou na noite de terça-feira: “Tremendous success tonight. Thank you to all!”; e, sobre a vitória no Senado, Sarah Huckabee Sanders, a press secretary da Casa Branca, concluiu que “it’s a huge moment, a huge victory for the president”.

Ora, se Trump retém o controlo, por exemplo, das nomeações para o Supremo Tribunal, além de ter um novo bode expiatório para tudo o que não conseguir fazer, agora vai-lhe ser impossível bloquear investigações e desenvolver sem restrições a sua agenda legislativa. E é curioso que agora os republicanos – e o próprio – reclamem que foi uma vitória pessoal do Presidente, o mesmo que disse no mês passado no Mississipi que os seus adversários “pretend I’m on the ballot”. Esta “vitória” faz pensar num político português que também ganhava sempre as eleições.

Mas se estes resultados são importantes, o mais importante facto político recente foi o anúncio de Merkel, que liderou a Alemanha nos últimos 13 anos, de que não seria candidata nem às eleições de 2021, nem à liderança da CDU na convenção de dezembro. Embora este anúncio tenha sido uma resposta natural à derrota nas eleições no Hesse, onde a CDU ficou reduzida a 28% dos votos, 11 pontos abaixo dos resultados de 2013, apanhou muita gente de surpresa. O SPD ter obtido o seu pior resultado desde 1946 não atenua a derrota, apenas mostra que os dois se divorciaram do eleitorado.

Na CDU, as divisões já eram evidentes logo depois das eleições federais do ano passado, e com a CSU – e Seehofer, em particular – ela estava praticamente em guerra, sobretudo em torno da questão da imigração. Agora está aberta a sua sucessão na CDU e, previsivelmente, na chancelaria, onde será difícil manter-se sem liderar o partido; resta saber se o SPD não prefere acabar com a coligação a continuar a perder eleitorado colado a um governo impopular e mais enfraquecido.

Já é candidato o ministro da Saúde, Jens Spahn, crítico da política de imigração (e não só). A preferência de Merkel vai para Annegret Kramp-Karrenbauer, a secretária-geral, conhecida como “mini-Merkel”. Mas Schaubel manobrava nos bastidores tentando concentrar apoios em torno de Friedrich Merz; Merkel antecipou-se, e ao proceder desta forma conseguiu manter alguma influência na escolha, que não é neutra: Merz é muito mais conservador e centrado na situação da Alemanha que Kramp-Karrenbauer, mais próxima do projeto da União.

Com o seu pragmatismo, Merkel deu um contributo único para a estabilidade europeia no período atribulado que atravessámos, e que ainda não acabou. Seria bom que não fosse verdade o que diz o “Financial Times”: que a Europa vai sentir a falta dela.

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