O Orçamento e a Cinderela

Onze minutos antes do prazo para a carruagem dourada se tornar em abóbora de novo, o ministro das Finanças foi ao Palácio entregar o Orçamento do Estado de 2019.

Mário Centeno não parecia preocupado com a hora tardia, apesar de ter sido obrigado a adiar a conferência de imprensa para apresentar os detalhes da estratégia para o dia seguinte. Explicou que o atraso não se deveu a eventuais negociações de última hora, mas sim à complexidade e à exigência técnica que o processo envolve.

De facto, o ar despreocupado que o ministro das Finanças demostrava era sinal de satisfação. Este foi o ‘seu’ Orçamento, mais até do que os outros três que apresentou e que passaram no teste do Parlamento. Não propriamente um conto de fadas, porque a preparação foi longa e necessitou da já habitual negociação com os parceiros da geringonça, mas uma boa história com um final que o Governo vê como feliz.

O pano de fundo do enredo ajudou, claro. Os resultados económicos positivos permitiram até deixar escapar as principais metas do défice público e do crescimento económico vários dias antes do baile final. O objetivo, porventura, terá sido deixar a apresentação oficial apenas para fazer gala do brilharete.

A madrasta má do enredo, na forma da oposição à direita, não conseguiu ser tão má assim. Rui Rio não atingiu ainda a estabilidade na liderança do PSD e (ate à hora de fecho desta edição) não reagiu sequer formalmente, deixando o partido simplesmente reiterar a crítica sobre uma oportunidade perdida e o passado nefasto socialista. Assunção Cristas veio a terreno e fez bem em falar sobre a ausência da atualização das tabelas do IRS, mas dizer que o orçamento dá com uma mão e tira com outra é uma evidência não muito contundente.

As irmãs, parceiras na geringonça, também não puseram grandes entraves, mantendo um olho no próximo baile (as eleições de 2019) que se afiguram difíceis tanto para o Bloco como para o PCP.

O Governo nem teve de ser muito eleitoralista, mantendo algumas cartas na manga para poder usar na campanha eleitoral.

Mário Centeno não pode esquecer, no entanto, que teve uma fada madrinha ao seu lado nos últimos anos – o contexto externo extraordinariamente favorável. Da magia que Mário Draghi trouxe às dividas soberanas da zona euro, passando pelos preços baixos do petróleo, até ao aquecimento da economia global, quase tudo tem corrido bem lá fora para ajudar os esforços e a gestão interna.

Tal como apareceu, essa fada madrinha pode desaparecer rapidamente. A turbulência nos mercados, a proximidade do fim das compras do BCE, a subida do Brent, o caos que poderá resultar do Brexit, o abrandar da economia mundial, tudo provoca uma sombra sobre este orçamento.

Outro problema no enredo, e porventura o mais importante, é que essa fada madrinha não resolveu todos os problemas, alguns vão persistir depois do baile. A ausência de uma aposta mais forte no investimento é realmente uma oportunidade perdida. Os problemas da Saúde mereciam mais atenção, enquanto os esforços para acalmar a função pública parecem escassos e isso poderá trazer problemas no futuro.

Sim, Mário Centeno conseguiu quase tudo o que queria neste orçamento, incluindo preparar o terreno para vir a ser lembrado como o “senhor défice zero”, mas não é tudo um conto de fadas.

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