Obrigado mas não, senhor Presidente

A intervenção de Marcelo não visa necessariamente salvar o jornalismo de qualidade. O Presidente parece estar mais preocupado com a preservação do statu quo e da velha ordem no setor dos media, da qual, de resto, fez parte durante muitos anos.

O setor da comunicação social atravessa uma fase de transformação cujo resultado final está ainda longe de se poder antever. A Internet mudou para sempre este setor e quem não souber adaptar-se aos novos hábitos de consumo de informação, reiventando o seu modelo de negócio, não terá futuro. Porém, continua a ser mais fácil falar do que fazer, apesar de sinais promissores como a crescente adesão às assinaturas digitais e o renovado reconhecimento do papel que o jornalismo pode desempenhar face à enxurrada de fake news, cujos efeitos são amplificados pelas redes sociais.

Em Portugal, tudo indica que os próximos tempos serão de redefinição e de reequilíbrio de poderes, prevendo-se novas reestruturações, a par de movimentos de consolidação e de soluções de financiamento alternativas. Alguns grandes grupos poderão fundir-se e outros vão sofrer profundas mudanças, mais uma vez com pesados custos humanos e sociais, que serão agravados pelos erros de gestão dos últimos anos.

Face a isto, são cada vez mais as vozes que defendem a intervenção do Estado para socorrer os media, com destaque para Marcelo Rebelo de Sousa. Porém, sem pôr em causa as boas intenções do Presidente, que exprimem uma genuína preocupação pelas pessoas afetadas pela crise, não podemos deixar de notar que a sua intervenção não visa necessariamente salvar o jornalismo de qualidade. Marcelo parece estar sobretudo preocupado em preservar o statu quo e a velha ordem no setor dos media, da qual, de resto, fez parte durante muitos anos.

O problema é que, sejam os media públicos ou privados, os riscos de uma “ajuda” direta do Estado são evidentes. Com exceção de medidas fiscais ‘cegas’ (também sugeridas por Marcelo), tudo o mais que o Estado fizer – como subsídios e outros apoios concedidos caso a caso – poderá colocar em causa a independência, a inovação e a livre concorrência no setor.

Por isso, obrigado mas não, senhor Presidente. As verdadeiras soluções para a crise dos media não virão dos partidos políticos e daqueles que gravitam na sua órbita, mas sim de quem souber reiventar o seu modelo de negócio, sem nunca perder de vista que o jornalismo existe para oferecer aos cidadãos os factos necessários para poderem fazer escolhas informadas. Se os políticos quiserem realmente ajudar, podem começar por demonstrar mais respeito pelos jornalistas e pelo seu trabalho.

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