Esta terça-feira o Governo espanhol decidiu colocar um ponto final numa das regras que mais polémica tem criado entre os adeptos de futebol do país vizinho. A nova lei do desporto exclui a obrigação dos clubes de futebol e basquetebol se tornarem sociedades anónimas desportivas (SAD) quando subirem às ligas profissionais, como LaLiga ou ACB.
Em Portugal, a ‘guerra’ entre clubes e SAD, tem sido espelhada entre o histórico Clube de Futebol “Os Belenenses” e o Belenenses SAD. Este último, na primeira liga de futebol, enquanto o Belenenses clube atua no escalão distrital português.
O atual presidente do Belenenses clube, Patrick Morais de Carvalho, em declarações ao Jornal Económico frisa que o Governo português devia por os olhos no homólogo de Espanha.
“O campeonato espanhol é dos mais competitivos da Europa e com melhores espetáculos, mas o poder político em Espanha preocupou-se com a lei das Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), porque também havia recorrentemente conflitos entre os clubes fundadores e as SAD. Em Portugal, o poder político não está a olhar para o problema, quando temos um campeonato pouco competitivo, com maus espetáculos, com estádios vazios e aparentemente o poder político não está a olhar para isto”, refere.
O líder do Clube de Futebol “Os Belenenses, realça que é necessário encontrar “formas de conciliar o futebol moderno com negócio, paixão e associativismo dos sócios” e como tal “a SAD não é o caminho exclusivo para isso como se comprova em Espanha”.
Patrick Morais de Carvalho sublinha que “hoje não se justifica a necessidade de haver uma SAD e a obrigatoriedade dos clubes se constituírem em SAD numa competição profissional”, isto porque “quer a Autoridade Tributária (AT), quer a Segurança social ou qualquer credor consegue exercer a mesma função inspetiva e fiscalizadora numa sociedade ou associação desportiva”.
O presidente do Clube de Futebol “Os Belenenses”, salienta que “a transparência e eficiência fiscal, está acautelada quer seja numa sociedade ou associação desportiva” e questiona qual “a necessidade de retirar o espírito associativo que impera no desporto português, como no espanhol, se tudo isso está acautelado?”
“A responsabilidade dos dirigentes eleitos nos clubes perante o fisco, segurança social e credores é exatamente igual às dos administradores nomeados e não eleitos nas SAD”, frisa o dirigente.
Patrick Morais de Carvalho acredita que esta transparência e eficiência fiscal vai “a quantidade enorme de problemas que existem no futebol português e que existiam no futebol espanhol, de conflitos entre clubes e putativos investidores. O Governo espanhol anda bem nesta questão, e acho que o Governo português também vai ter de olhar para esta questão mais tarde ou mais cedo”.
Uma decisão que o presidente do clube, que milita na divisão distrital de Lisboa, julga que vem dar razão à luta que tem travado com o Belenenses SAD. “Sem dúvida, é para isso que nós temos vindo a alertar. Nós estamos a favor do futebol moderno, que tem que casar com o fervor clubista, com a paixão dos adeptos, sob pena de termos os estádios vazios e espetáculos degradantes, a que temos assistido na primeira liga em Portugal. Se tirarmos o [Futebol Clube do] Porto, Benfica e Sporting, não há campeonato português, os estádios estão vazios, justamente porque se ‘matou’ a paixão pelo futebol”.
Na opinião de Patrick Morais de Carvalho, “os clubes podem e devem fazer negócio no futebol como sempre fizeram, só que antigamente não havia fiscalização nem nos clubes, nem nas sociedades em Portugal”.
O presidente do emblema da Cruz de Cristo salienta que tem de ser o poder político a tomar esta decisão e não os clubes. “O poder político são os portugueses e são eles que exercem a tutela e fiscalização sobre esta atividade económico-desportiva. São eles que têm de atuar e não podem meter a cabeça debaixo da areia como a avestruz e fazer de conta que não se passa nada”, diz o dirigente, que dá precisamente o exemplo do que acontece com o Belenenses SAD.
“Não é só Belenenses, há vários clubes de norte a sul do país com problemas semelhantes, investidores que desrespeitam os direitos especiais dos clubes fundadores e das massas associativas. No caso do Belenenses, não é por acaso que se vêem milhares de pessoas que são sócios e adeptos do clube, a acompanhar a equipa no distrital, e no estádio do Bonfim, no jogo Belenenses SAD – Moreirense havia 298 pessoas na bancada”, afirma Patrick Morais de Carvalho.
