Paulo Neves, presidente do IPDAL: “Portugal é o país mais central na triangulação América-Europa-África”

O Encontro do Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África vai no 4º ano. O IPDAL é o organizador em colaboração com a SEGIB, a Caixa e o Real Instituto Elcano. Nesta quinta e sexta-feira, dirigentes políticos, investigadores, gestores, embaixadores e investidores vão demonstrar como o Atlântico tem potencial para voltar a ser o grande centro do comércio […]

O Encontro do Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África vai no 4º ano. O IPDAL é o organizador em colaboração com a SEGIB, a Caixa e o Real Instituto Elcano. Nesta quinta e sexta-feira, dirigentes políticos, investigadores, gestores, embaixadores e investidores vão demonstrar como o Atlântico tem potencial para voltar a ser o grande centro do comércio mundial. Portugal é o país mais central nesta triangulação, afirma o presidente do IPDAL, Paulo Neves.

O que se pode esperar do IV Encontro do Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África? Quem faz parte da organização?
O Encontro do Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África é uma iniciativa do IPDAL mas co-organizada com a SEGIB, que é a Secretaria-Geral Ibéro-Americana, também com a Caixa Geral de Depósitos e com o Real Instituto Elcano. Este é o maior “think tank” espanhol e tem como presidente honorário, mas bastante ativo, o Rei de Espanha.
Vamos ter sessões no dia 16, quinta-feira, durante a tarde, e dia 17 de abril, sexta-feira, durante todo o dia. Na sessão de abertura vai estar a secretária-geral da Segib, Rebeca Grynspan, e vai estar o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que vai abrir os trabalhos. Tendo em conta que o encontro tem o alto patrocínio do Presidente da República, haverá uma mensagem do Presidente Cavaco Silva. Depois vamos ter uma sessão plenária, onde vai participar Laura Chinchilla, presidente da Costa Rica; vai participar também a CPLP, através de um embaixador africano, que vai falar pelo continente; um embaixador da América Latina, que vai falar pela região, e outro da Europa. Todos eles são os decanos dos embaixadores. Depois vamos ter a participação de Bernardo Pires de Lima, um investigador português. Também vai participar o António Martins da Cruz, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros e também assessor do primeiro-ministro Cavaco Silva. Vamos ter Henrique Neto na sessão plenária e, recorde-se, o empresário e candidato às presidenciais tem um livro sobre a estratégia de Portugal e fala muito da triangulação, não sendo, aliás, a primeira vez que participa nesta iniciativa. Vamos ter também o diretor da Casa da América, que é uma grande instituição espanhola, de Madrid, assim como o presidente da Maison de l’Amérique Latine, que é uma instituição muito grande em Paris, que serve tal qual o IPDAL para promover a América Latina em França e a França na América Latina. O presidente, que é um grande embaixador francês, também vem cá. A Aicep também vai participar, e para falar também sobre este triângulo estratégico teremos Luís Marques Mendes, como advogado e Conselheiro de Estado. Temos também Josep Piqué, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Aznar. O dia é encerrado pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete.
Na sexta-feira, o IPDAL vai apresentar um estudo sobre as relações económicas entre Portugal e a América Latina. Este estudo foi encomendado ao ISCTE. Teremos na abertura do segundo dia o ministro da Economia, António Pires de Lima. E vamos ter um painel muito interessado dedicado à diplomacia parlamentar, em que vai estar presente o vice-presidente da Assembleia da República, António Filipe, ainda o Francisco Assis, Maria de Belém, e temos um deputado do Uruguai. Vamos puxar muito pela importância que os parlamentos têm na diplomacia triangular.
Vamos ter um painel sobre a inovação e ciência, em que vai estar o reitor do ISCTE, vai estar a Universidade Nova e também o Laboratório Ibérico de Nanotecnologia, que fica em Braga. Vamos ter também um painel sobre a energia, infraestruturas e logística, em que vai participar o Porto de Sines, a Visabeira e o Grupo Rangel.
Da parte da tarde temos outro painel sobre a cooperação e desenvolvimento, em que vai participar o Instituto Camões, a FAO, o prof. António Mendonça, ex-ministro das Obras Públicas; vem ainda um representante da OCDE, que vem apresentar um estudo precisamente sobre esta triangulação, com destaque para os países europeus. Teremos a maior fundação checa, a Vaclav Havel, para fazer uma intervenção sobre cooperação, e vai estar também o diretor do Centro Norte Sul. O encerramento do painel é feito por Diogo Freitas do Amaral, ex-presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Por último, no painel das instituições financeiras vamos ter a Caixa Geral de Depósitos, a Sofid, a Corporación Andina de Fomento (CAF), o  Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e IFC – Banco Mundial.

Quais os resultados dos “policy papers” que foram redigidos nas edições anteriores?
Em todos os encontros elaboramos um “policy paper topic” com as sugestões dos intervenientes quanto à triangulação. Tem havido sugestões desde alertarem para a enorme burocracia que existe nos investimentos; a falta de informação; a burocracia na contratação de colaboradores da Europa para trabalharem em África e na América Latina; para além da questão muito falada do reconhecimento das competências. Ou seja, os países que recebem não reconhecem a validade dos diplomas, e isso é grave em termos de investimento.
Por outro lado há instituições como o IPDAL a falarem muito de que o Atlântico pode voltar a ser o grande oceano do comércio. O Atlântico foi sem dúvida o grande oceano do comércio nos últimos séculos, deixou de o ser no séc. XXI, tendo passado para o Pacífico, mas muito se pode fazer pelo Atlântico. Pode não ser o maior mas pode continuar a ser um grande oceano do comércio. Para isso, quando estamos a falar de triangulação América Latina-Europa-África estamos a falar em três continentes, além disso estamos a falar em 133 países, e de 2.300 milhões de consumidores. Das economias que mais crescem no mundo, sete estão ou em África ou na América Latina. Não está nenhuma da Europa, mas a Europa continua a ser o continente mais rico. Ou seja, é um Atlântico de oportunidades e Portugal aparece precisamente no hub desta triangulação, a ponta do triângulo é Portugal, ou se quisermos a Península Ibérica, porque a Espanha naturalmente também tem uma presença muito grande na América Latina. Portugal tem uma presença na América Latina, desde logo com o Brasil, mas tem uma boa presença com a Venezuela, por exemplo. A nível de comércio com a Venezuela estamos muito bem, a nível de comércio com o México também estamos muito bem. E os países da América Latina e os africanos para as empresas portuguesas são mercados importantes porque são à dimensão da maior parte das empresas exportadoras portuguesas. Grande parte destes países, sejam da América Latina, sejam da África, são pequenas e médias economias. São países que se adaptam perfeitamente à dimensão das 3 mil exportadoras portuguesas, que são as PME e que são as grandes exportadoras portuguesas. Depois, temos as necessidades imediatas no continente americano, e também no africano, caso das infraestruturas, das energias renováveis, e de toda a investigação que lhe está associada.
Existe uma coincidência entre aquilo que é o know-how português com aquilo que é a necessidade dos países latino-americanos. E mais uma vez chamo a atenção: não se olhe para a América Latina só para grandes economias como o Brasil, como o México, mas devemos estar focados também em outras pequenas e médias economias, que apresentam grandes oportunidades para as empresas portuguesas.
Também é bom que se tenham em atenção que países que têm dinheiro, têm fundos, ou fundos próprios como o caso do Equador, que tem fundos diretos do petróleo que vai para esse tipo de investimento, como também de bancos de fomento. E estou a falar sem dúvida de quatro: a CAF, o BID, o Banco Mundial e os fundos da China. Há fundos disponíveis para as empresas portuguesas com base nestas origens. Curiosamente, nos dois primeiros que aqui temos, a CAF e o BID, Portugal é sócio e as empresas portuguesas têm direito a crédito por essa mesma razão.

Pode levantar algum véu do que vai sair do estudo encomendado ao ISCTE?
O estudo divide-se em três partes, primeiro vamos começar pela parte diplomática. Há uma coincidência feliz entre as visitas do Presidente da República de Portugal e do primeiro-ministro às maiores economias da América Latina. Este era realmente um ponto que queríamos verificar no estudo, queríamos saber se realmente as apostas diplomáticas nas visitas de Estado oficiais do primeiro-ministro e do Presidente da República para aqueles países são as regiões onde existem mais oportunidades. E de facto coincidiu a aposta e o resultado. Nos últimos dois anos houve uma troca de visitas com todos os países da Aliança do Pacífico, o que é curioso, pois como se sabe é, neste momento, a aliança económica mais bem sucedida, pelo menos neste período de três anos. Estamos a falar do México, da Colômbia, do Peru, do Chile e agora do Panamá. Curiosamente, todos esses presidentes visitaram Portugal, ou seja, há uma coincidência muito feliz das nossas visitas lá e de lá para cá. Depois outra conclusão que tirámos é que temos que apostar melhor em algumas economias que necessitam de know-how, de produtos ou de serviços que Portugal tem. Este estudo mostra quais são os países em, que Portugal devem apostar ainda mais em termos de exportação e investimento na América Latina. Depois há outro caso também, que é o investimento da América Latina que vem para a Europa, que tem aumentado nos últimos anos, por variadíssimas razões. E seria bom que Portugal estivesse atento a receber esse tipo de investimento latino-americano que começou já numa quantidade apreciável, que sai da América Latina para o mundo e para os países europeus.

Este triângulo estratégico é virtuoso ou é realista?
É virtuoso. Se há país que conhece este triângulo estratégico é Portugal. Andamos nisto desde o século XV. Mais. A Europa continua a ser o maior cliente da América Latina. Temos é agora um concorrente muito grande que é a China, que não havia há dez anos. Aliás, em alguns países, incluindo o Brasil, a China já é o maior cliente, por mais estranho que possa parecer. Mas a Europa continua a ser de longe o maior investidor da América Latina, como também o é em África.
O que se passa agora no mundo? Nós temos cada vez mais as relações sul-sul, ou seja entre os países da América do Sul, onde destaco o Brasil, com África. Os dois países que têm mais relações diplomáticas entre a América Latina e África são Cuba e Brasil. E tem havido cada vez mais investimentos e interesses de um lado para o outro. Portugal pode aparecer como um hub. Muitas das empresas brasileiras que querem ir para a América Latina têm capital português ou know-how português, e ao contrário, de Angola também quase todas as grandes empresas angolanas têm capital ou conhecimento português.

Neste momento já há cada vez mais uma relação comercial América Latina-África, que é estabelecida diretamente, nomeadamente entre Brasil e Angola e vice-versa. O que pode Portugal fazer aqui no meio?
Pode muito e por uma simples razão. Essas relações comerciais estão melhores mas, se formos a ver no detalhe são incipientes. Mas pode ser muito mais em que áreas? Agroindústria, tanto em Angola como em Moçambique. A agroindústria é o futuro de África e se há continente que tem know-how muito grande nessa área é precisamente a América Latina. O Brasil, a Argentina, o Uruguai são os países que têm melhor know-how nessa área. Se forem com empresas que já conhecem Angola muito bem, e quais são essas empresas? As portuguesas. Se eles trouxerem o capital e nós dermos o know-how, haverá acordos para entrar em Angola.

Para além dos negócios este triângulo visa também criar uma aproximação a nível de indicadores mundiais de boa governação e de gestão com ética. Esses objetivos estão a ser conseguidos?
Temos aí um problema que é a entrada da China. Este país pode exportar muita coisa, pode exportar materiais, pode comprar matérias-primas, mas também pode exportar modelos. Como é evidente, comparando o modelo político da China com os modelos que defendemos e praticamos na Europa, penso que os nossos são melhores. É boa esta aproximação da “good governance”. Claro que não somos excecionais na Europa, sabemo-lo perfeitamente mas, de facto, em alguns pontos estamos de facto um pouco mais avançados. Basta ver que as ruas do Brasil estão com mais de 700 mil pessoas a pedir combate à corrupção e melhor governação e se tivermos soluções com que possamos ajudar esses governos, será ótimo. Há dois anos tivemos um painel de boa governação, combate à corrupção e transparência nas decisões públicas. Este pode ser um dos pontos em que podemos ajudar a América Latina e África a melhorar, apesar de o ambiente ter vindo a progredir em ambas as regiões.

O que é expectável que possa sair das grandes linhas deste IV Encontro?
Portugal não é um país periférico. Esta é a primeira conclusão. Quem disser o contrário comete um erro. Portugal é o país mais central nesta triangulação e o Atlântico vai voltar a ser o grande oceano do comércio. Desde logo com o acordo, que mais tarde ou mais cedo vai ter de acontecer, entre a União Europeia – eu não diria com o Mercosul – e o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, que são os países que querem rapidamente ter um acordo de livre comércio com a Europa. Depois já temos o acordo de livre comércio que vai ser assinado entre os EUA e a Europa. E nós falamos muito dos EUA e esquecemo-nos do Canadá, que também vai fazer esse acordo e é uma grande potência do mundo. Ou seja, o Atlântico vai ter um aumento do número de comércio extraordinário e vai ter de entrar por algum lado e Portugal é o primeiro país em que esse comércio pode entrar, até mesmo para ser distribuído. Podemos ainda apostar mais nos nossos portos, podem chegar os grandes navios de contentores e daqui saem noutros navios mais pequenos para outros países da Europa, ganha-se dois dias em relação a Roterdão, os preços ficam mais baixos. Se há um país que tem a ganhar com esta triangulação é Portugal.
Vamos chegar a conclusões sobre a energia, não nos podemos esquecer que mais cedo ou mais tarde poderá haver um incremento muito grande de exportação de petróleo dos EUA para a Europa, e como se sabe com o novo acordo querem levantar a questão ambiental. A entrar, um gasoduto vindo dos EUA tem de ser por Portugal. Temos na logística, na parte da energia este aumento noutra vez do comércio a nível Atlântico. Portugal é o primeiro.
Depois temos a questão aérea, de que a TAP é um exemplo extraordinário. A TAP já é um hub, mais de metade dos passageiros não ficam em Portugal, aterram cá mas vão para outro sítio. É um exemplo do que pode acontecer. E na relação da América Latina com África, o hub deve ser Portugal, e essa pode vir a ser uma das conclusões deste Encontro. A outra é um interesse que já temos verificado de países da América Latina que querem ser observadores da CPLP. Temos estes países muito atentos ao que se passa nos países da CPLP.
E a questão do ensino superior, das universidades e das pós-graduações. Portugal tem capacidade para receber muitos mais alunos da América Latina e de África que desejam vir estudar em Lisboa e em outras cidades.

Vítor Norinha/OJE

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