Personalidades JE: Ricardo Salgado – Ascensão e queda do “DDT”

A BBC arrasou Ricardo Salgado, elegendo-o o pior executivo de 2014. Pedro Queiroz Pereira fez tudo para desmascarar Salgado e o luso-angolano Hélder Bataglia revelou as ligações desconhecidas. Eis a ascensão e queda do banqueiro que durante mais tempo liderou um banco privado em Portugal.

Manuel de Almeida/Lusa

O Jornal Económico escolheu 30 personalidades dos últimos 25 anos que marcaram, pela positiva e pela negativa, a atual sociedade portuguesa: políticos, empresários, gestores, economistas e personalidades da sociedade civil. A metodologia usada para compilar as Personalidades JE está explicada no final do texto.

Não foi por acaso que Ricardo Espírito Santo Silva Salgado (Cascais, 1944) era conhecido pela sigla “DDT” – acrónimo de Dono Disto Tudo. Economista, o antigo presidente do Banco Espírito Santo (BES) chegou a ser o banqueiro há mais tempo no ativo em Portugal. Muito antes da derrocada do BES, sobretudo a partir de 2008, não houve ano em que, entre os gestores de topo do sector financeiro, não corressem rumores sobre a inevitabilidade do processo de sucessão de Ricardo Salgado, antecipando nomes que surgiam como sendo os seus mais prováveis sucessores.

Cada vez que corria uma nova shortlist de sucessores de Ricardo Salgado, logo a seguir, quase imediatamente, surgiam informações que contrapunham a solidez dos rácios de gestão do BES e a excelência dos contactos internacionais mantidos pelo Grupo Espírito Santo, sempre posicionado entre a “fina-flor” da banca com pergaminhos aristocráticos e a alta sociedade das famílias industriais. No entanto, nunca desapareciam os rumores sobre a desagregação da estrutura do GES e também sobre o crescente mal-estar entre ramos desta família.

Quando os problemas aumentaram e Ricardo Salgado começou a sentir a perda de eficácia nos seus contactos diretos ao topo da política em Portugal e em Angola – que coincidiu com a generalização dos rumores sobre o desequilíbrio nas contas do universo Espírito Santo, numa altura em que esses rumores já chegavam à maioria dos gabinetes ministeriais –, quase se antecipou a inevitável forma trágica como Ricardo Salgado ia mergulhar diretamente do topo do topo até ser confrontado com a implacável perda da sua autonomia.

Isso aconteceu quase da noite para o dia, mas para muitos gestores, políticos, familiares e amigos essa tragédia não constituiu surpresa. Curiosamente, só nessa altura é que muitos apontaram a dedo a gestão calamitosa de Ricardo Salgado. Não terá sido o caso de Pedro Queiroz Pereira, que, por razões diversas, se tinha distanciado de Ricardo Salgado, seguindo rumos diferentes. Também não foi o caso do luso-angolano Hélder Bataglia, que, por motivos muito diferentes, permitiu que fossem conhecidas atividades de sociedades do universo Espírito Santo que ajudaram a entender o desmoronamento financeiro deste grupo familiar.

As informações de Hélder Bataglia

Começando pelo fim, é importante reter que, recentemente, o Tribunal da Relação de Lisboa considerou nulo o despacho do juiz de instrução da “Operação Marquês”, Ivo Rosa, que entendeu não incluir nem validar neste processo as declarações do empresário Hélder Bataglia, antigo responsável da sociedade ESCOM – Espírito Santo Comercial, proferidas no âmbito de um outro processo – declarações sobre transferências financeiras que indiciam eventuais ligações entre José Sócrates e Ricardo Salgado. Assim, o Tribunal da Relação de Lisboa aceitou essas declarações de Hélder Bataglia como meio de prova, tornando nulo o despacho proferido por Ivo Rosa a 21 de junho de 2019 que tinha determinado a impossibilidade de utilizar como prova, na fase de instrução, declarações prestadas pelo arguido Hélder Bataglia no âmbito de um outro processo.

Em sentido contrário à decisão de Ivo Rosa, os juízes desembargadores Ricardo Cardoso e Artur Vargues entenderam que as declarações de Hélder Bataglia tinham sido prestadas legalmente e que por isso são “legalmente admissíveis como meio de prova e podem ser valoradas em sede de apreciação indiciária em fase de instrução”.

O que disse, então, Hélder Bataglia? As suas declarações reportam factos sobre a sociedade ESCOM – constituída em 1993, onde Hélder Bataglia detinha 33% do capital, gerida por Luís Horta e Costa e Ferreira Neto, que operava em Angola, sobretudo na área dos recursos mineiros e que acabou por ser subdividida na sociedades ESCOM BV e Legagy, para onde foram ao ativos “problemáticos”. Hélder Bataglia terá explicado como funcionavam as relações entre a ESCOM e outras sociedades offshore mencionadas nos autos da “Operação Marquês”, como por exemplo a Overview Investments e a Green Emerald Investment Ltd, bem como o esquema de transferência e colocação de fundos no exterior, que recorria à sociedade Montenegro, Chaves & Cia Lda, de Francisco Canas.

Entretanto, Ivo Rosa concluiu a fase de instrução do processo “Operação Marquês”, onde o arguido principal é José Sócrates, sendo este um processo onde serão julgadas suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e de outros crimes económico-financeiros.

Mas – note-se – Hélder Bataglia prestou depoimentos sobre Ricado Salgado no processo “Monte Branco”, que também foram considerados decisivos para constituir Ricardo Salgado arguido no processo “Operação Marquês”, sobre créditos concedidos pelo BESA – BES Angola sem as devidas garantias, que contribuíram para um desequilíbrio de contas da ordem dos quatro mil milhões de euros, que desequilibrou a situação do BES e acelerou a derrocada financeira do seu universo.

Ou seja, o depoimento de Hélder Bataglia terá sido muito relevante aos investigadores do DCIAP – Departamento Central de Investigação e Acção Penal, para avançarem na triagem das offshores e dos circuitos financeiros utilizados para movimentar dinheiro no universo financeiro em análise. Recorde-se que o processo “Monte Branco” começou a ser investigado em 2011, surgindo de informações obtidas durante o inquérito da “Operação Furacão”, de 2005, que investigou indícios de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Paralelamente, alguns familiares diretos de Ricardo Salgado lançaram alertas públicos sobre o descontrolo a que chegara a situação aflitiva do grupo. Contudo, poucos assumiram o problema com a frontalidade do empresário Pedro de Mendonça Queiroz Pereira – que pertenceu ao núcleo de amigos mais chegados da família Espírito Santo e que conhecia muito bem os universos do GES e do BES.

Queiroz Pereira quis “tudo passado a pente fino”

Pedro Queiroz Pereira quis certificar-se com rigor qual era o nível da tragédia em que tinha submergido o Grupo Espírito Santo (GES). Para esse efeito, em 2013, contratou uma equipa jurídica para “passar a pente fino” as supostas irregularidades que estavam a preocupar as pessoas que melhor conheciam a realidade do GES.

Depois de ter reunido elementos factuais complexos, compilou-os num ficheiro destinado a ser analisado pela supervisão do Banco de Portugal, deixando que Ricardo Salgado soubesse dessa sua intenção.

Na origem das investigações pedidas por Queiroz Pereira esteve a sua forte suspeição de que Ricardo Salgado já teria avançado para um acordo secreto com a sua irmã Maude Queiroz Pereira e com os primos Carrelhas, destinado a permitir que Salgado controlasse a Semapa para poder alimentar o GES com o dinheiro captado ao grupo da família Queiroz Pereira.

Por isso, quis desfazer rapidamente as ligações da Semapa ao GES e vice-versa, para se libertar das participações sociais com que Ricardo Salgado pretendia consumar a estratégia de subjugação do capital da Semapa ao GES. Mas também tencionava desfazer-se da participação que a família Queiroz Pereira teve no GES.

Um “problema” da ordem dos 2,5 mil milhões de euros

Segundo investigações feitas na altura pelo semanário Expresso, Queiroz Pereira enviou uma missiva confidencial ao governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, a 24 de setembro de 2013, manifestando a sua preocupação com a situação do GES, posto que o Grupo Queiroz Pereira participava em 7,67% na sociedade ES Control, que, por seu turno, detinha perto de 50% da ES International, onde se identificava um “problema” da ordem dos 2,5 mil milhões de euros, constituído por endividamento que não era refletido nas contas e por património incerto.

Ora, a preocupação de Queiroz Pereira residia na dificuldade em aceder às verdadeiras contas da ES Control. Atendendo ao peso que o GES tinha na economia portuguesa, solicitou ajuda ao Tribunal do Luxemburgo para confirmar a situação financeira da ES Control, quando já conhecia igualmente a situação de falência da ES Internacional, através das investigações feitas pelos juristas contratados por Queiroz Pereira.

Todo este enquadramento terá assustado Ricardo Salgado, que fez com que o GES libertasse a participação que detinha na Semapa, assumindo que, dessa forma, Queiroz Pereira abandonaria as investigações sobre o GES. Essa tática permitiria que Salgado mantivesse um rumo discreto, contendo os problemas internos do GES dentro das paredes das suas sociedades suíças.

Ricardo Salgado não se enganou, porque depois de Queiroz Pereira ter conseguido cortar os laços societários que ligavam a Semapa ao GES, informou o Banco de Portugal que não teria mais nada a dizer sobre o GES ou sobre o BES.

BBC elegeu Salgado como o pior executivo de 2014

Porém, não foi esse silêncio que salvou Ricardo Salgado. Pouco tempo depois, os principais problemas do GES e do BES foram tornados públicos. Com grande pompa mediática internacional, Ricardo Salgado foi eleito pela BBC como o “pior presidente executivo de 2014”.

Assim que abandonou a liderança do BES, a 14 de julho de 2014, por exigência do Banco de Portugal – substituído por Vítor Bento, devido à revelação de prejuízos e irregularidades nas contas, confirmadas como consequências da “gestão ruinosa” praticada por Ricardo Salgado – foi eleito pela BBC como o pior executivo do ano, por ter levado à falência o segundo maior banco privado português.

A BBC noticiou então que o BES tinha sido alvo de uma resolução no início de agosto, apresentando prejuízos de 3,6 mil milhões de euros nos primeiros seis meses do ano, o que implicou a injeção de 4,9 mil milhões de euros no Novo Banco, para onde foram depois transferidos os ativos de boa qualidade, deixando os “tóxicos” no BES.

A BBC explicou igualmente que o BES era parcialmente detido pela sociedade Espírito Santo International (ESI), que controlava investimentos não financeiros financiados através de um complexo esquema. Referiu ainda o endividamento da holding Rioforte, na ordem dos 2,9 mil milhões de euros, quando só detinha ativos de 172 milhões de euros, que, por isso, também entrara em insolvência.

250 membros da família em cargos de gestão

A BBC revelou que o GES tinha 250 membros da família Espírito Santo em cargos de gestão, comentando que “Ricardo Salgado e os seus familiares chegados viviam como soberanos em grandes propriedades”. A BBC deu como exemplos da má gestão de Ricardo Salgado os financiamentos fora do balanço da ESI, ocultados aos investidores, a valorização da participação da ESI no banco em 2,7 mil milhões de euros face a um valor de mercado de 565 milhões, ou, ainda, a garantia dada à petrolífera estatal da Venezuela no valor de 364 milhões de dólares em contrapartida do investimento em dívida da ESI, o que contrariou as instruções do Banco de Portugal que exigiam a separação entre o banco e os negócios familiares, além de que se tratavam de operações que nem sequer tinham registos contabilísticos.

No fim deste escândalo, houve várias informações que davam conta de que aparentemente Ricardo Salgado tinha ficado sem nada, e que continua a braços com processos em tribunal.

Entre muitas “peripécias” que surgiam nos jornais, não passou em branco a relação profissional e os contactos proporcionados em África por Ricardo Salgado a um conhecido construtor civil da Reboleira, nem a forma como este empresário manifestou o reconhecimento ao presidente executivo do BES através de “liberalidades” que encheram muitas páginas de diários e semanários.

O seu antigo amigo Pedro Queiroz Pereira salvaguardou a integridade do seu grupo industrial – apesar de ter falecido, vítima de um ataque cardíaco –, passando às suas filhas o testemunho da liderança dos negócios familiares.

Para a posteridade ficaram as declarações que prestou em 2014 na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre o GES: “Ricardo Salgado tem um problema: não lida maravilhosamente com a verdade”.

Ricciardi tentou tirar Salgado da liderança

Recorde-se que no segundo semestre de 2013, José Maria Ricciardi, primo de Ricardo Salgado, defendeu alterações urgentes no modelo de governação e nos órgãos sociais do BES. Admitiu que Ricardo Salgado deveria deixar a liderança do BES. Em causa, segundo alertou publicamente, estava a falta de transparência na governação do BES e do GES. Nesse sentido, invocou como um dos exemplos de falta de transparência a “liberalidade” aceite por Ricardo Salgado e assim justificada para legitimar o facto de ter recebido o “presente” de 14 milhões de euros que lhe foi oferecido pelo construtor civil José Guilherme.

Mesmo no fim de 2013 Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi travaram uma batalha pela sucessão, “contando espingardas” para confirmarem quem ficaria a liderar o banco e o grupo familiar. Ricardo Salgado venceu, mantendo a liderança, enquanto José Maria Ricciardi se demitiu das funções que ocupava a 20 de junho de 2014, o que se revelou fatal para o GES e para a sua irremediável falência, e também para o BES, que em agosto de 2014 foi objeto do processo de resolução decidido pelo Banco de Portugal.

Sete anos depois, José Maria Ricciardi veio a mostrar-se surpreendido com a dimensão das fraudes e com o número de crimes aludidos pela acusação do Ministério Público, garantindo que nunca tinha imaginado que a situação fosse tão má. Como se tinha focado no desenvolvimento do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI) – depois vendido ao Haitong Bank –, de que foi presidente, não viveu a realidade quotidiana no BES, pelo que – apesar de ter sido igualmente administrador do BES e membro do Conselho Superior do GES e administrador da ES International –, referiu a vários jornais que se tivesse sabido de tudo teria pressionado ainda mais a saída de Ricardo Salgado dos cargos que ocupava.

Ricciardi comentou várias vezes que não sabia mais de “5% da realidade”, comparando a sua posição com a da Autoridade Tributária e do Ministério Público que precisaram de vários anos de investigações para conseguirem tentar identificar responsáveis. Ricciardi também disse várias vezes que tentou “fazer alguma coisa”, o que não aconteceu com a maioria dos membros do GES e da família Espírito Santo. Efetivamente, entre os membros da família Espírito Santo, José Maria Ricciardi foi um dos elementos que mais contribuiu para denunciar publicamente alguns dos maiores problemas do GES e do BES.

José Maria Ricciardi acabou por ser ilibado de quaisquer crimes cometidos no GES e no BES, sendo arrolado como testemunha do Ministério Público. Ricciardi continua a defender a tese de que se Ricardo Salgadio tivesse sido afastado em 2013, e se os modelos de governação do banco e do grupo tivessem sido alterados nessa fase, teria sido evitado o colapso do BES e os prejuízos causados a muitos investidores.

Infância e juventude “normais”

A infância e a juventude de Ricardo Salgado foram passadas em Lisboa, num percurso “normal”, igual ao de tantos jovens da classe média. Estudou em escolas públicas – fez a primária na Lapa e o liceu no Pedro Nunes. Licenciou-se em 1969 em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras – o atual ISEG – da Universidade Técnica de Lisboa.

Seguiu para a Marinha Portuguesa, onde frequentou o Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, antes de ir trabalhar para o BESCL – Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa, em 1972, onde assumiu a direção do gabinete de estudos económicos e depois a direção de crédito, até 1975, quando o banco foi nacionalizado.

Reconstrução do GES

Fora de Portugal participou na reconstrução do GES, primeiro no Brasil (1976-1982) e depois na Suíça (1982-1991). Regressado a Portugal, criou o Banco Internacional de Crédito em 1986, antes do início das reprivatizações. Em 1991, após a reprivatização, Ricardo Salgado assumiu a presidência executiva do BES, aumentou quota de mercado do BES de 8% para 20% e avançou para a sua internacionalização.

Em 2002 foi nomeado para o Supervisory Board da Euronext NV (em Amesterdão) e em 2006 participou na fusão da Euronext com o New York Stock Exchange (NYSE). Foi administrador não executivo do Banco Bradesco (no Brasil) de 2003 a 2012.

Foi presidente da comissão executiva e vice-presidente do Conselho de Administração do BES. Também foi membro do conselho superior do GES. Acumulou essas funções com as de presidente do Conselho de Administração do Espírito Santo Financial Group (no Luxemburgo) e do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI).

Foi igualmente administrador do Espírito Santo Bank of Florida (nos EUA), da E.S. International Holding (no Luxemburgo), da Espírito Santo Resources (nas Bahamas), do Banque Privée Espírito Santo (na Suiça) e do Banque Espírito Santo et de la Vénétie (em França). Atualmente enfrenta no tribunal o maior escândalo financeiro de Portugal. Várias pessoas que conhecem bem Ricardo Salgado ainda hoje têm dificuldade em assimilar toda a tragédia do GES e do BES e a quantidade de investidores e de empresas que foram lesados com esta hecatombe.

“Brutal destruição de valor”

Luís Todo Bom, que organizou a fusão das empresas de telecomunicações que estiveram na origem da Portugal Telecom (PT) e que também realizou a sua primeira privatização, enquanto presidente da PT – um grupo que também ruiu depois dos problemas criados pelo universo do GES, então acionista da PT – comentou recentemente, em entrevista ao Jornal Económico, a “brutal destruição de valor” provocada em outras empresas pela derrocada do GES.

Sobre o sentimento com que ficou em relação a Ricardo Salgado, Luís Todo Bom comentou que não tem “estados de alma em relação às pessoas. Todos nós somos passageiros, somos transitórios neste mundo. E nunca há só um culpado”. O primeiro presidente da PT considera a este respeito que “os modelos de previsão e os modelos de compliance não funcionaram. Houve um conjunto de aspetos que não funcionaram. E houve várias cumplicidades. Os modelos de supervisão da PT não funcionaram. O modelo de gestão de risco não funcionou. O modelo de auditoria interna não funcionou”.

“Ricardo Salgado era o CEO do GES. É nessa perspetiva que é apontado como o maior responsável. Independentemente de quem é responsável, eu sinto uma enorme tristeza pela PT, por essa empresa onde eu, durante quatro anos, trabalhei 16 horas por dia para a construir. Uma empresa que chegou a valer no mercado 11 mil milhões de euros, desapareceu”, sublinhou Luís Todo Bom, rematando: “Sinto uma enorme tristeza”.

METODOLOGIA

O Jornal Económico (JE) selecionou as 25 personalidades mais relevantes para Portugal nos últimos 25 anos, referentes ao período balizado entre 1995 e 2020, destacando as que exerceram maior influência no desenvolvimento da sociedade civil, da economia nacional, no crescimento internacional dos nossos grupos empresariais, na forma como evoluíram a diáspora lusa e as comunidades de língua oficial portuguesa, no processo de captação de investidores estrangeiros e, em suma, na maneira como o país se afirmou no mundo. Esta lista foi publicada a 4 de setembro de 2020, antes do primeiro fim de semana do nono mês do ano. Retomando a iniciativa a partir do último fim de semana de setembro, mas agora alargada a 30 personalidades, o JE publicará, todos os sábados e domingos, textos sobre as 30 personalidades selecionadas, por ordem decrescente. Aos 25 nomes inicialmente publicados, o JE acrescenta agora os nomes de António Ramalho Eanes, António Guterres, Pedro Queiroz Pereira, Vasco de Mello e Rui Nabeiro.

Cumpre explicar ao leitor que a metodologia seguida foi orientada por critérios jornalísticos, sem privilegiar as personalidades eminentemente políticas, que tendem a ter um destaque mediático maior do que o que é dado aos empresários, aos economistas, aos gestores e aos juristas, mas também sem ignorar os políticos que foram determinantes na sociedade durante o último quarto de século. Também não foram ignoradas as personalidades que, tendo falecido pouco antes de 1995, não deixaram de ter impacto económico, social, cultural, científico e político até 2020, como é o caso de José Azeredo Perdigão e da obra que construiu durante toda a sua longa vida – a Fundação Calouste Gulbenkian.

O ranking é iniciado pelos líderes históricos de cinco grupos empresariais portugueses, com Alexandre Soares dos Santos em primeiro lugar, distinguido como grande empregador na área da distribuição alimentar, e por ter fomentado a internacionalização do seu grupo em geografias como a Polónia – com a marca “Biedronka” (Joaninha) – e a Colômbia. Assegurou igualmente a passagem de testemunho ao seu filho Pedro Soares dos Santos. O Grupo Jerónimo Martins tem vindo a incentivar a utilização de recursos marinhos, pelo aumento da produção portuguesa de aquacultura no mar da Madeira – apesar de vários economistas terem destacado a importância da plataforma marítima portuguesa como fonte de riqueza, poucos empresários têm apoiado projetos nesta área, sendo o grupo liderado por Soares dos Santos um dos casos que não descurou o potencial do mar português.

Segue-se em 2º lugar Américo Amorim, que além do seu império da cortiça – o único sector em que Portugal conquistou a liderança mundial –, se destacou no mundo da energia e nos petróleos, assegurando a continuidade do controlo familiar dos seus negócios através das suas filhas. Belmiro de Azevedo aparece em terceiro lugar, consolidando a atividade da sua Sonae, bem como a participação no competitivo mundo das telecomunicações e o desenvolvimento do seu grupo de distribuição alimentar, com testemunho passado à sua filha, Cláudia Azevedo.

Em quatro lugar está António Champalimaud e a obra que o “capitão da indústria” deixou, na consolidação bancária, enquanto acionista do Grupo Santander – um dos maiores da Europa –, mas também ao nível da investigação desenvolvida na área da saúde, na Fundação Champalimaud. Em quinto lugar surge Francisco Pinto Balsemão que centrou a sua vida empresarial na construção de um grupo de comunicação com plataformas integradas e posições sólidas na liderança da imprensa e da televisão durante o último quarto de século.

Os políticos aparecem entre as individualidades seguintes, liderados por Mário Soares (que surge em 6º lugar). António Ramalho Eanes está em 7º lugar, António Guterres em 8º, seguindo-se Marcelo Rebelo de Sousa (9º), António Costa (10º), José Eduardo dos Santos (11º) – pelo peso que os elementos da sua família tiveram na economia portuguesa, sobretudo a sua filha Isabel dos Santos, e pelos investimentos concretizados em Portugal pelo conjunto de políticos e empresários angolanos próximos ao ex-presidente de Angola, atualmente questionados, na sua maioria, pela justiça angolana – e Aníbal Cavaco Silva (12º). Jorge Sampaio surge em 13º, seguido por Mário Centeno (14º), José de Azeredo Perdigão (15º), António Luciano de Sousa Franco (16º), Pedro Passos Coelho (17º), Álvaro Cunhal (18º), Ernesto Melo Antunes (19º), Luís Mira Amaral (20º), Pedro Queiroz Pereira (21º), Vasco de Mello (22º), Ricardo Salgado (23º), José Socrates (24º), Ernâni Rodrigues Lopes (25º), Francisco Murteira Nabo (26º), Rui Nabeiro (27º), Leonor Beleza (28º), António Arnaut (29º) e Joana de Barros Baptista (30º).

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