Políticas públicas de emprego: “Há uma escassez muito grande de talento qualificado”

A conferência do Jornal Económico em parceria com a Multipessoal, transmitida no passado dia 30 de junho, focou-se nas políticas públicas de emprego.

Cristina Bernardo

A iniciativa contou com a presença de André Ribeiro Pires, COO da Multipessoal, Pedro Marques, eurodeputado pelo PS, ex-ministro do Planeamento e das Infraestruturas e ex-secretário de Estado da Segurança Social, João Proença, presidente do Conselho Geral e de Supervisão da ADSE e ainda Joana Silva, professora associada e diretora do PROSPER – Center of Economics for Prosperity da Católica Lisbon.

Em cima da mesa estiveram temas centrais ligados à evolução da formação, do emprego e também do mercado de trabalho em Portugal, numa conversa moderada pelo editor do Jornal Económico, Ricardo Santos Ferreira.

Esta foi a terceira conferência de um ciclo de eventos focados no futuro do emprego em Portugal. O objetivo é analisar a evolução do mercado de trabalho, tanto do ponto de vista das empresas como dos trabalhadores, entendendo os seus desafios mais concretos mas simultaneamente tentando estabelecer tendências e oportunidades que surgirão em diferentes vertentes.

Seja legislativamente, ou ao nível formativo, as políticas públicas de emprego revelam-se um tema pertinente, especialmente enquadradas no contexto pandémico: o cenário exige respostas, mas levanta ainda mais questões.

André Ribeiro Pires realça à partida que “o maior receio é mudar”. Diz o COO da Multipessoal que “estamos a falar de pessoas que, podendo ter emprego, também pensam em mudar de emprego”.

“É aí que notamos efetivamente mais receio”, diz. Falando das mudanças estruturais que aconteceram no mercado de trabalho no último ano, e das que ainda estão por vir, refere “há mais receio também para as empresas, em comprometerem-se com estas mudanças”.

Joana Silva estabelece que “a pandemia, pela sua natureza, criou alguma vulnerabilidade”, especialmente “junto dos menos qualificados e dos mais pobres”. A docente acredita que “apesar das políticas muito fortes – e nesta crise tivemos uma resposta incomparável – houve pessoas, num número muito significativo, que perderam o seu emprego ou parte do seu salário”, reforça.

Já João Proença, reconhece que no período pandémico “uma das questões mais importantes foi a resposta do Estado: saúde, educação, proteção social”.

“Estas áreas deram uma resposta extremamente importante”, defende, mas sem esquecer que muito do mérito se deve aos trabalhadores, “que demonstraram uma grande dedicação”.

Ainda assim, Proença acautela quanto à fraqueza aparente da máquina do Estado: “Temos que olhar para a administração pública e [perceber] como tem vindo a perder a qualificação”, diz. “Nos últimos anos, sofreu um nível de desqualificação muito acentuado”, defende.

Administração Pública está “desqualificada” por causa da “ditadura das Finanças”, dizem João Proença e Pedro Marques

“Há uma escassez muito grande de talento qualificado”, concorda André Ribeiro Pires. “Neste momento, procuram-se funções muito especializadas em zonas onde elas não existem”, continua o COO da Multipessoal, alertando que “os empresários sentem muito esse desafio” e que essa lacuna impossibilita uma boa capacidade de resposta por parte das organizações.

Esta dor vai ser persistente

Quanto às sequelas no mercado de trabalho em virtude da pandemia, e que não se fazem sentir só ao nível dos rendimentos e oportunidades de trabalho, mas sobretudo na progressão de carreira, Ribeiro Pires acautela: “Esta dor vai ser persistente”.

Joana Silva alude mesmo a essa dor. “Sabemos hoje que há efeitos cicatriz, com efeitos de 10 ou mais anos”, garante.

“Para alguém que entra no mercado de trabalho numa crise é preciso que a economia reanime. Era melhor que houvesse uma recuperação e uma ida além da tendência”, diz reforçando que “a assimetria é uma parte importante desta crise”.

Ainda sobre a inércia de carreiras na função pública e sobre a falta de quadros especializados, Pedro Marques apontou que o abrandamento das renovações de quadros se deve à “ditadura dos ministros das Finanças”.

“Gostava muito que a Administração [Pública] tivesse uma capacidade de adaptação muito mais rápida, mas não tem”, refere o eurodeputado socialista.

“Deixámos de renovar quadros da Administração Pública, com honrosas exceções, nomeadamente no sector da saúde e no sector da educação, que tiveram contratações para suprir as saídas ao longo do tempo, mas apenas isso”, explica.

Proença acrescenta ainda que “O Estado não tem uma política de retenção ou de recrutamento, sobretudo de talento”.

O futuro do mercado de trabalho, e por arrasto o futuro dos colaboradores, não está só assente na formação individual especializada – tanto é possível deduzir.

Segundo dados do PORDATA de 2019, existem em Portugal cerca de 699 mil trabalhadores na Administração Pública (central, local, regional e nos fundos da Segurança Social). O possível enfraquecimento destas carreiras será alvo de análise, numa altura em que a política pública de emprego ganha uma relevância acrescida, não só para o cenário de recuperação económica, mas também para o de evolução e até atratividade da função pública.

Pode rever a conferência na íntegra aqui.

 

 

Este conteúdo patrocinado foi produzido em colaboração com a Multipessoal.

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