Porque gosto deste campeão

Sérgio Conceição teve uma temporada inicial estrondosa no FC Porto. Correspondeu à aposta de Pinto da Costa e fez crescer os jogadores. Soube gerir e enfrentar as dificuldades do período das lesões. Ganhou o título na luta direta com o Benfica, com personalidade e com justiça indiscutível.

Gosto de futebol. Sem desdenhar da paixão por um clube, o combustível que alimenta este extraordinário jogo e este fabuloso negócio, aprecio sobretudo o modelo, discuto o sistema e, como todos, depois da estratégia e da táctica, detenho-me inevitavelmente na discussão sobre os jogadores. Serve isto para dizer que, desta vez, abro uma excepção: faço sujeito o treinador.

Quando Sérgio Conceição começou a sua segunda carreira no futebol, no Olhanense, confesso que desconfiei. Tinha sido um futebolista de categoria mundial – e não esquecerei aquele jogo de Roterdão, no Euro-2000, em que ele marcou três golos à Alemanha jogando como ala-direito no esquema de três centrais inventado por Humberto Coelho para esse preciso confronto. Mas eu, admito que erradamente, via-o ainda como uma ‘espécie de Sá Pinto’, demasiado temperamental para conduzir outros homens, lidar com a pressão dos adeptos e da comunicação social e trabalhar em consonância com a estratégia de um clube. E, na verdade, em alguns momentos desta temporada, Sérgio Conceição ainda demonstrou que tem de aprender a dominar-se melhor, como na reacção à derrota em Paços de Ferreira (que naquela altura complicou as aspirações do FC Porto).

A época futebolística, no entanto, acabou por consagrar Sérgio Conceição como o elemento mais importante deste justo triunfo do FC Porto. Porquê? Porque: 1) aceitou um projeto muito difícil; 2) devolveu a ‘mística’ à equipa; 3) comprometeu-se com o clube qb sem comprometer a tranquilidade do plantel; e 4) ao serviço de uma ideia, geriu bem a equipa e melhorou os jogadores.

1 Lembro que Sérgio Conceição aceitou ser treinador do FC Porto numa época em que não havia inicialmente dinheiro para jogadores novos. Antes pelo contrário, havia que vender para cumprir as exigências do ‘fair-play’ financeiro da UEFA. Percebe-se, agora, que isso foi um risco controlado. Conceição sabia que o clube não podia comprar, mas podia reforçar-se imenso. As duas coisas nem sempre são sinónimos em futebol. ‘Bastava’ fazer um ‘best of’ da riqueza humana que o clube tinha sob contrato. O risco, que para a carreira dele era bom, afinal, também era um risco controlado. Foi mais sagaz, e mais inteligente, que Lopetegui e Nuno Espírito Santo, outros bons treinadores que não conseguiram ganhar no FC Porto.

2 Um dos eixos principais do triunfo passou pela conquista dos adeptos. Conceição acabou com a excessiva obsessão pela posse de bola, tónica às vezes irritante e pouco consequente da temporada anterior, e impôs nervo, combate e um futebol mais linear. Esse caminho devolveu a equipa à comunhão com os adeptos. A época confirmou Danilo (enquanto houve), mas sobretudo revelou um Herrera nunca visto no Dragão e deu finalmente espaço à afirmação de Sérgio Oliveira, vice-campeão mundial de sub-20 (com Cédric, Roderick, Mário Rui, Danilo, Pelé e Nelson Oliveira, entre outros) e vice-campeão europeu de sub-21 em 2015, e capitão nacional dessa equipa que tinha Bruno Fernandes, Bernardo Silva, João Mário e William Carvalho. Um médio polivalente, com muita personalidade e presença física, que pode perfeitamente ser chamado para o Mundial da Rússia. O FC Porto bateu-se toda a época com nervo e empenho. Ressuscitou ‘a mística’ que os adeptos costumavam associar ao desempenho da equipa nos anos dourados de tantos e tantos outros grandes jogadores e êxitos.

3 Sérgio Conceição foi um treinador sempre comprometido com a estratégia do clube, demonstrando-o em alturas-chave com frases inteligentes, mas o seu discurso manteve a independência necessária à manutenção da tranquilidade da equipa. Nunca se lhe ouviram demasiadas alusões às ‘guerras politicas’, de e-mails e outras. Objetivo: pressão e responsabilidade sobre os jogadores. Nada de alimentar desculpas nem distrações. O clube pode, e deve, no caso concreto, trabalhar em várias frentes. Enquanto isso, aos jogadores deve ser exigido concentração, rendimento e vitórias. O foco devido naquilo que interessa. Linear.

4 O treinador impôs justiça para todos. Fê-lo tanto na gestão da baliza, entre o consagrado Casillas e o esperançoso José Sá, como quando recuperou Soares para a equipa depois de algum desconforto público na sequência de uma reação do jogador, que não escondeu a insatisfação quando substituído no jogo com o Sporting na final Taça da Liga. Soares e Aboubakar, que não sobrepuseram o tempo das suas lesões mais importantes, acabaram por ser muito importantes para o rendimento da equipa. A grande figura do FC Porto foi, indiscutivelmente, o possante Marega, com 22 golos na Liga e 23 na época. Passa de quase anónimo para um dos avançados que mais procura vai ter nas próximas semanas a nível europeu. Mas a temporada portista, foi marcada, também, pela confirmação da categoria da dupla de centrais Filipe/Marcano (sendo que também Reyes é fiável para qualquer grande equipa); pelo crescimento de Ricardo Pereira; a solidez de Alex Telles; a reaparição de Brahimi ao mais alto nível e o aguçar do apetite por Diogo Dalot, uma das mais sólidas esperanças do futebol português.

Resumindo: Sérgio Conceição teve uma temporada inicial estrondosa no seu clube. Correspondeu à aposta de Pinto da Costa e fez crescer os jogadores. Soube gerir e enfrentar as dificuldades do período das lesões. A equipa tremeu mas não caiu – e ganhou o título na luta direta com o Benfica, no Estádio da Luz, com personalidade. A vitória do FC Porto neste campeonato não tem contestação. Alguns dos maiores erros arbitrais até prejudicaram o clube, como no jogo da primeira volta com o Benfica, que evidenciou como o protocolo do VAR tinha de evoluir (e evoluiu), e como tem de continuar a evoluir ainda para que o futebol produza mais vezes, como desta vez, um campeão com justiça indiscutível.