Portugal: Via aberta para a eletrificação

Ainda marginais mas a crescer a bom ritmo, os volumes de vendas de veículos elétricos parecem apontar para uma mudança de paradigma na mobilidade em Portugal. Lenta, mas inexorável.

Depois da recessão que se iniciou em 2011, e que teve nos anos de 2012 e 2013 os seus pontos mais baixos, o mercado português de automóveis tem vindo a recuperar, esperando-se que, no final de 2017 sejam atingidas as 260.000 unidades vendidas (Passageiros + Comerciais Ligeiros), com o mercado a regressar a um patamar idêntico ao da média da década passada.

Da mesma forma, as vendas de veículos eletrificados também têm registado um crescimento continuado. Se em 2010 as 1502 unidades vendidas representavam 0,6% do mercado total, as 5052 unidades vendidas em 2016 já valem 2,4% do total de vendas, valor que, em maio deste ano já havia subido para 2,8%, segundo os dados da ACAP.

Considerando apenas os 100% elétricos, as 788 unidades vendidas no nosso país na primeira metade do ano, representam pouco mais de 0,5% do total de vendas. Um valor ainda marginal, mas que tem tido um crescimento de monta, se atentarmos a que, em 2010, as vendas deste tipo de veículos não iam além dos 0,01% do total do mercado e que os primeiros seis meses do ano já representam mais percentagem do que o total de 2016 (0,34%), ano em que foram comercializados 813 veículos elétricos (VE), segundo os dados da ACAP. Tais resultados geram uma perspetiva bastante otimista sobre as vendas destes veículos e também sobre a aceleração do seu crescimento.

No entanto, e à semelhança de outros países, a aposta que as autoridades portuguesas façam no desenvolvimento deste mercado estará diretamente ligada ao seu sucesso. Veja-se o caso paradigmático da Noruega, onde os automóveis elétricos representam cerca de 40% do mercado total.

Em Portugal, essa aposta tem-se feito sentir maioritariamente através de incentivos governamentais, com o mais conhecido a ser o subsídio de 2250 euros suportado pelo Fundo Ambiental para a compra de um veículo 100% elétrico. Apesar de não ser, como até aqui, preciso entregar um veículo para abate, este subsídio apenas está disponível para os primeiros mil clientes que comprovem a aquisição.

Além deste existem outros, tanto para particulares como para empresas. À isenção do ISV juntam-se a dedução total do IVA (empresas), a isenção do IUC (empresas e particulares) e ainda a isenção de tributação autónoma (empresas) para veículos com valor inferior a 50 mil euros, o que abarca praticamente todo o mercado. E não nos podemos esquecer que, em algumas cidades do país (como Lisboa), os VE não pagam o estacionamento.

Carregar ou não carregar?

Apesar de estarem a crescer, as vendas de veículos elétricos ainda esbarram no clássico problema da autonomia, apesar dos avanços já registados nesta matéria. Além da aposta dos construtores e fornecedores de componentes em novas baterias e carregadores mais rápidos, há que melhorar o número de postos de carregamento disponíveis na via pública e garantir que os lugares de estacionamento reservados para os elétricos em recarga não são ocupados pelos veículos de combustão.

Se a segunda parte da questão apenas pode ser resolvida através da educação dos condutores e do apelo ao seu sentido cívico e de responsabilidade, quanto à quantidade de postos de carregamento disponíveis, os responsáveis pela rede aprestam-se a fazer melhor. Atualmente, são mais de 500 os postos de carregamento da rede Mobi.E (que contabilizam um total de 1250 pontos de carregamento), distribuídos por 50 municípios de Portugal Continental e Madeira, utilizados por um total de 3815 condutores registados.

Estes valores poderão crescer a breve trecho, pois o Orçamento do Estado para 2017 contempla a transferência de um montante de até 715.070 euros do Fundo Ambiental para a Mobi.E, montante que deverá ser utilizado para reconverter os 100 postos de carregamento mais utilizados, que passarão a oferecer mais potência, bem como para a expansão da rede de carregamento a todos os concelhos de Portugal Continental, processo que a Mobi.E afirma se iniciará após o verão.

Conseguirá a rede de postos de carregamento acompanhar o crescimento das vendas de veículos eletrificados que os analistas e peritos esperam? Não há razão para acreditar que a rede não crescerá à medida que as vendas o façam, até porque, identificada a oportunidade de negócio, é de esperar que surjam empresas interessadas em ocupar este espaço e operar postos de carregamento, tal como acontece já em Los Angeles, EUA, com a ChargePoint.

Para facilitar a necessária massificação dos postos de carregamento, a Urbitricity propõe uma ideia revolucionária e muito mais barata: utilizar os postes de iluminação para instalar tomadas que servirão para recarregar as baterias dos veículos. Recorrendo a um cabo especial, com um contador e um leitor de cartões, este sistema, que atualmente está a ser testado em algumas cidades europeias, permite contabilizar a energia utilizada e cobrá-la.

Com um custo estimado de 100 euros por cada tomada instalada, o sistema agora proposto pela empresa alemã – que já está em fase de testes em cidade como Londres, Berlim e Amesterdão – facilita o investimento de novas empresas no fornecimento de energia para o recarregamento de veículos eletrificados, pois é bastante mais barato do que instalar um posto de carregamento “tradicional”. Além de mais barato, é também mais rápido e fácil de instalar, pois utiliza a cablagem já existente, não obrigando a obras na via.

Parecem estar, assim, lançados os alicerces para suportar o crescimento das vendas de veículos elétricos e garantir que o futuro de mobilidade sustentável que as marcas tanto anunciam chegue mais cedo do que mais tarde. Falta apenas uma mudança de paradigma. Ou será de mentalidade?

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