“Raga”: à descoberta da cultura oceânica

Convite para uma viagem pelas tradições e conhecimentos ancestrais dos povos daquele a que chamam de “continente invisível”, a Oceania. Uma reflexão e uma crítica da globalização pelo Nobel francês J.M.G. Le Clézio – a sugestão desta semana da livraria Palavra de Viajante.

A imensidão geográfica da Austrália esconde com frequência a enorme variedade da Oceania, havendo inclusivamente quem chame a este o “continente invisível”. Antes de viajar pelas inúmeras ilhas – para nós, remotas – da Oceania, o escritor francês Le Clézio, Prémio Nobel da Literatura em 2008, não imaginava que o mito se encontrava com a realidade.

Em “Raga”, editado em português pela Sextante, o autor entrelaça o real e o imaginário e convida o leitor à descoberta de uma cultura em que a oralidade, as tradições e os conhecimentos ancestrais (como a orientação pelas estrelas ou a meditação sobre a imensidão do mar) e a importância da mulher ainda são primordiais.

 

 

Sempre com palavras de grande beleza, Le Clézio faz uma reflexão e uma crítica da mundialização, em particular, à ameaça que esta representa à harmonia de uma civilização preciosa mas frágil.

Na realidade, toda a sua obra dá destaque a diferentes culturas, em diferentes tempos históricos, desafiando constantemente o domínio ocidental e criticando a superficialidade do modo de vida materialista que caracteriza o ocidente há umas quantas décadas, e que se tem vindo a acentuar nos últimos anos.

Segundo o autor, a relação dos seres humanos entre si, com a natureza e com o passado tem vindo a uniformizar-se, perdendo muita da sua genuinidade. “Raga”, ao mergulhar nas raízes ancestrais da cultura oceânica, procura recuperar essa autenticidade há muito esquecida neste lado de cá do mundo.

“A planta que escapou à dominação colonial nas ilhas, sobretudo em Pentecostes, foi o ‘kava’ (nome científico: Piper methysticum). É a planta ligada ao povo melanésio, à sua história, aos seus sonhos. É a planta que dá paz.

(…) O ‘kava’ não é só uma bebida para os Ni-Vanuatu. Tal como a coca para os índios dos Andes, é a planta que contém o espírito do lugar, é a sua língua, a sua memória comum. Foi sem dúvida por isso que os governos coloniais a proibiram.”

J. M. G. Le Clézio (as iniciais escondem os nomes próprios Jean-Marie Gustave) nasceu em Nice, em 1940, mas cresceu nas Maurícias, onde viveram e trabalharam várias gerações de familiares. Oriundo de uma família de ascendência inglesa e bretã, foi criado num ambiente bilingue.

Na década de 1970, viveu durante alguns anos no seio de comunidades indígenas no Panamá, experiência que, reconhece, mudou a sua forma de ver o mundo, a arte e as pessoas. Em França recebeu diversos prémios literários e é um dos escritores franceses mais traduzidos no mundo.

Recomendadas

Financiamento da Comissão Europeia: das luvas eletrónicas aos estúdios de Hollywood

A Comissão Europeia anunciou no final do mês de junho a atribuição de 149 milhões de euros para financiar 83 PME e empresas em fase de arranque. Entre estas, contam-se várias empresas portuguesas.

“O Amigo do Deserto”

Sacerdote, teólogo, crítico literário e fundador do seminário espiritual Buscadores de la Montaña, Pablo d’Ors dá-nos a conhecer nesta obra um homem dedicado aos desertos, que neles busca o absoluto e o silêncio. Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

Trufa branca: ritual repete-se em Lisboa até dia sete com o ‘chef’ Tanka Sapkota

O ‘chef’ de origem nepalesa Tanka Sapkota, especializado em gastronomia italiana, já há doze anos que proporciona um menu de trufa branca de Alba, no Piemonte, norte de Itália, no restaurante ‘Come Prima’, em plena Lisboa.
Comentários