Os portugueses que se deslocam para o Algarve no verão já sabem que vão ouvir mais inglês do que português, mostrando a predominância que a cultura britânica tem na região, sobretudo durante as férias. Numa reportagem que tomou o pulso aos negócios do Algarve, a “Reuters” denota a dificuldade em fazer negócio que se explica sobretudo pela falta de turistas.
Samuel Tilley é proprietário de um pub no Algarve e o seu negócio tem estado quase parado, afetando as receitas no final do mês. Conta a ‘Reuters’ que Tilley está furioso com os regras britânicas para definir a lista de países seguros, pelo facto destas normas manterem os turistas afastados e por “comprometerem ainda mais a já sombria temporada de verão” de 2020.
Vilamoura foi uma das zonas visitadas pelos jornalistas da “Reuters”, onde se localiza o pub de Samuel Tilley. “Foi muito chocante. Não acredito que exista lógica por detrás dessa decisão”, disse o proprietário, falando da decisão de deixar Portugal continental fora dos corredores aéreos. “Há pessoas magníficas aqui no Algarve e acho que essa decisão do governo britânico os prejudicou”, continuou Tilley.
Atualmente, o Algarve tem sido visitado por portugueses devido ao bom tempo e aos preços anormalmente baixos para esta altura do ano. Mas no ano passado, quando a pandemia ainda não ameaçava o turismo, Portugal recebeu perto de dois milhões de britânicos, sendo que 64% dos britânicos rumaram diretamente para o Algarve devido às famosas praias e bom tempo. Até à data, apenas 92 mil britânicos chegaram à região, um valor longe do que foi registado em anos anteriores.
Entre junho e agosto, são muitos os cidadãos britânicos que chegam a Portugal, com o Algarve como destino preferencial. Anualmente, os britânicos são responsáveis por perto de 3,2 mil milhões de euros para a economia portuguesa, aproveitando a gastronomia e as visitas guiadas, sendo que muitos negócios criados estão direcionados para este período do ano.
À “Reuters”, o presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas apontou que “obviamente, parte do estrago não pode ser revertido” e que “muitas pessoas optaram por outros destinos” aos quais o Reino Unido não impôs quarentena obrigatória.
À data, os hotéis algarvios contam com uma taxa de ocupação perto dos 40%, sendo que sem os efeitos da pandemia já deveriam estar lotados. Também o número de desempregados na região cresceu 231% em comparação com o mesmo período do ano passado, aumentando de oito mil para mais de 26 mil desempregados, uma vez que muitos dependiam dos empregos sazonais.
Reino Unido reavalia Portugal a 27 de julho
Na próxima segunda-feira, 27 de julho, o Reino Unido vai anunciar mais países para os quais não existe necessidade de quarentena obrigatória, e o jornal “The Times” anunciou esta quinta-feira, 23 de julho, que Portugal deverá fazer parte da lista.
De acordo com o jornal britânico, Londres deverá ceder “à pressão poderosa” do Executivo português, que já tinha considerado a exclusão do território nacional (à exceção dos Açores e Madeira) como “absurda e errada”, revelando uma possível colisão nas relações bilaterais entre os mais velhos aliados do mundo.
A lista de 75 países e territórios não deverá ser alterada profundamente, mas “espera-se que sejam permitidas viagens sem quarentena para Portugal”, adiantou o “The Times”.
No entanto, a decisão deverá ser diferente. Uma fonte do Ministério dos Transportes britânico admitiu ao “The Telegraph” que o levantamento de restrições a Portugal será feito através de corredores regionais, englobando o Algarve à Madeira e Açores, deixando de fora Lisboa, que tem apresentado mais casos ativos.
“As pontes aéreas regionais são uma opção para países com surtos localizados”, disse uma fonte do ministério dos Transportes ao “The Telegraph” na quarta-feira, aludindo às dificuldades relativamente aos EUA, que poderão continuar sujeitos à quarentena durante muitos meses se a quarentena se aplicar a nível nacional.
Ao “The Times”, o consultor de viagens Paul Charles admitiu a possibilidade de Portugal ser adicionado à nova lista onde não é necessária quarentena. “Portugal já perdeu turistas britânicos em julho e haverá tumultos absolutos se também perder em agosto”, disse o consultor à publicação.

