Uma entrevista dada pelo chefe do governo russo, Dmitry Medvedev, ao jornal ‘Kommersant’ no aniversário do conflito desencadeado na noite de 7 para 8 agosto de 2008 (quando o então presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili lançou um ataque contra Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul e enclave separatista), insiste na tese de que o Ocidente e os Estados Unidos acabarão por compreender a posição de Moscovo.
Os acontecimentos de há dez anos foram precedidos por uma crescente tensão entre a Rússia e a Geórgia, país cuja perspetiva de entrar na NATO (juntamente com a Ucrânia) promoveu um feroz confronto entre os líderes ocidentais e o presidente Vladimir Putin por alturas da cimeira da NATO em Bucareste, em abril de 2008.
As tropas russas entraram na Ossétia do Sul a partir do norte e avançaram para a região de Tbilisi, apoiando os separatistas que pretendiam desvincular-se da Geórgia. O então presidente francês Nicolas Sarkozy serviu de mediador em nome da União Europeia a um confronto que fez mais de 600 mortos (civis e militares) e que criou dois novos Estados independentes: a Ossétia do Sul e da Abecásia.
Em 26 de agosto de 2008, Medvedev, na altura presidente da Rússia em ‘substituição de Putin, (primeiro-ministro à época), assinou o decreto reconhecendo a independência dos dois territórios. “Cheguei à conclusão de que não era possível propor nada melhor para reconhecer a independência destas duas formações”, disse o agora primeiro-ministro ao ‘Kommersant’.
Medvedev disse considerar que a questão acabou por ficar bem ’arrumada’ nas relações entre a Rússia e o Ocidente, e que espera que continue assim. Outro tanto não aconteceu quando a Rússia fez mais ou menos a mesma coisa (o apoio militar dissimulado a grupos dissidentes) na Ucrânia.
Mas esta situação “não é eterna”, disse Medvedev: “parece-me que nossos vizinhos da Europa estão a conscientizar-se de que o diálogo é melhor do que explicar que não estamos certos. Espero que esse tipo de consciência alcance finalmente os Estados Unidos e seus líderes. A bola está do lado do Ocidente: são eles que têm de fazer os movimentos que indicarão o desejo de restabelecer relações, para as quais estamos preparados”.
O primeiro-ministro continua a considerar que a entrada da Geórgia na NATO “é uma ameaça à paz”, que pode “causar um conflito terrível”. Se a Geórgia se juntar à NATO (mesmo sem a Abcásia e a Ossétia do Sul), “isso pode levar a um conflito potencial, sem dúvida, porque, para nós, esses dois Estados são independentes, com os quais temos relações de amizade e onde existem bases militares russas”. “Espero que os líderes da NATO sejam suficientemente racionais para não fazerem nada a esse respeito” – o de convidar a Geórgia (que continua a considerar a Abcásia e Ossétia do Sul territórios ocupados) para a organização.
Como resultado do reconhecimento das duas nações por parte da Rússia, a Geórgia cortou relações diplomáticas com Moscovo. Nenhum país no espaço pós-soviético reconheceu a Abcásia e a Ossétia do Sul como nações independentes, o que foi feito apenas pela Venezuela, Nicarágua, Nauru e, desde maio, a Síria.
Entretanto, derrotado na eleição de 2012, Saakashvili é atualmente acusado de crimes contra os direitos humanos na Geórgia.

