Sacri pede ajuda ao FMI. O que falhou na Argentina?

Tanto os economistas que questionam as políticas neoliberais do atual governo, como os mais ortodoxos, afirmam que o presidente argentino enfrenta uma situação complicada.

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 As medidas económicas adotadas pela Argentina para travar o disparo do dólar na semana passada surtiram efeito, mas não foram suficientes para dissipar a preocupação com a capacidade do governo em conter a inflação e evitar outra desvalorização do peso.“O problema é que, na Argentina, o aumento do dólar imediatamente repercute nos preços e isso, por sua vez, tem impacto sobre a inflação, que continua em torno de 25%, apesar das promessas do governo de reduzi-la”, disse em entrevista à Agência Brasil o economista Alan Cibils, da Universidade Nacional de General Sarmiento. Segundo Cibils, os argentinos começam a desconfiar das politicas do presidente Mauricio Macri, que estabeleceu como prioridade o combate ao alto índice inflacionário, herdado de sua antecessora, a senadora Cristina Kirchner. “Já passaram mais de dois anos, e o custo de vida não só continua alto, como corre o risco de subir ainda mais.”Historicamente, o dólar na Argentina funciona como um termómetro do desempenho económico: cada vez que há incerteza, quem pode compra a moeda norte-americana, por considerar que é a melhor proteção contra a inflação. Com o aumento da demanda, o valor do dólar sobe e acaba por ser refletido nos preços – até de produtos que são fabricados na Argentina, com consumos locais, como o pão. É o que os argentinos chamam de índice “por via das dúvidas”, explicou Hector Politi, da associação Consumidores Libres. “Como não tem certeza se vai ter dinheiro para repor o stock no futuro, o comerciante aumenta os preços, por via das dúvidas, e isso gera um círculo vicioso.”A corrida cambial da semana passada ocorreu depois dos EUA decidirem aumentar a taxa de juros. Muitos dos que tinham aplicado dinheiro em Letras do Banco Central argentino (Lebacs), porque rendiam mais que os papéis do Tesouro norte-americano, não renovaram os investimentos. “Preferiram investir no mercado dos EUA porque, apesar dos juros ainda serem mais baixos que os argentinos, os riscos são menores”, disse Cibils. “A desvalorização do peso e a inflação alta tornam os investimentos menos atrativos, e existe ainda o perigo de a Argentina recorrer a medidas para impedir a saída de dólares, como já fez no passado.”

Para atrair de volta os capitais que estavam deixando o país, o Banco Central argentino aumentou as taxas de juros de referência de 33.25% para 40%. Apesar de o dólar ter recuado, em um primeiro momento, na segunda-feira, voltou a subir levemente. “Essa medida pode atrair investidores, que decidem renovar a aplicação por um mês, ou dois, mas a turbulência da semana passada pode voltar”, ressaltou Cibils. Para o economista, o erro do governo foi estimar que a causa da inflação é monetária, quando, na verdade, boa parte desta deve-se ao aumento das tarifas públicas e dos combustíveis, que haviam sido controlados e subsidiados durante os 12 anos dos governos de Nestor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015).

Tanto os economistas que questionam as políticas neoliberais do atual governo, quanto os mais ortodoxos, afirmam que Macri enfrenta uma situação complicada – especialmente tendo em vista que não tem maioria parlamentar, que perdeu apoio no Congresso e que espera disputar a ganhar a reeleição. Segundo Fausto Spotorno, economista-chefe da consultora Orlando Ferreres e Associados, o principal problema é o alto défice fiscal. “Os gastos do governo federal equivalem a 6% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e  serviços produzidos no país), quando deveriam estar em 3%.”

O Ministério da Economia reconhece que precisa cortar despesas, mas considera politicamente inviável fazer um ajuste enorme de uma só vez, optando por uma política gradualista.

“O problema da Argentina é que nosso mercado financeiro e muito pequeno, e nossa economia depende muito de recursos externos”, acrescentou Spotorno. “Para financiar o défice fiscal, o governo tem que emitir moeda e, com isso, gera inflação. Outra opção é aumentar juros para atrair capitais. Ou seja, o dilema sempre será buscar um equilíbrio porque não temos como imprimir dólares aqui”, explicou. De acordo com o economista, a alta do dólar não é tão preocupante porque o câmbio estava atrasado.

Spotorno e Cibils concordam que as pressões sobre o dólar e o governo serão grandes. O desafio de Macri era baixar a inflação e os gastos públicos e, ao mesmo tempo, manter os planos de investimento em infraestrutura, o carro-chefe de sua campanha para a reeleição. Isto num momento em que a confiança nos mercados emergentes é menor.

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