Sebastião Lancastre: “A nova diretiva vai mudar de forma radical o negócio da banca e abrir oportunidades”

Sebastião Lancastre, fundador da Easypay, diz que a nova diretiva de serviços de pagamento vai abalar os alicerces da banca tradicional e abrir horizontes quase ilimitados às ‘fintech’. A revolução vem aí.

Cristina Bernardo

Como surgiu a ideia de lançar a Easypay?
Eu costumo dizer, em jeito de graça, que nasci num berço de plástico, porque se fala de dinheiro de plástico em casa desde que nasci. O meu pai lançou a Unicre, no célebre ano de 1974, e eu um dia tive oportunidade de ir trabalhar com ele. As pessoas mais jovens têm esta necessidade de mudar qualquer coisa na organização. Numa organização como a da Unicre, que na altura tinha cerca de 300 colaboradores, só se fazia um tipo de transações. Pegando nesse exemplo, depois reparámos que na Ordem dos Advogados ou na Ordem dos Médicos, quando precisavam de cobrar quotas utilizavam aquele meio “expedito” que era o cobrador. Foi assim que surgiu a ideia da Easypay. Em 1999, em plena bolha das ‘dotcoms’, desafiei mais três sócios (um da área de gestão, outro comercial e outro da área da tecnologia) para se juntarem comigo e fazerem a Easypay. Tivemos de vencer duas barreiras. A primeira foi o registo da marca. No ano 2000 não era possível registar marcas anglo-saxónicas em Portugal. A segunda, o próprio Banco de Portugal só permitia a autorização de bancos ou de ‘factoring’ e isso não se enquadrava. Enfiámos o projeto na gaveta e assim ficou até 2007.

O que fez durante esse período?
Fiz uma agência de marketing directo, o lançamento da ONI, talvez o meu maior cliente, depois passei para o marketing relacional, e acabei no marketing digital. Tive ainda a honra e o prazer de fazer um projeto como o Pordata, desenhá-lo, concebê-lo e lançá-lo. E a extraordinária oportunidade de ter trabalhado diretamente com o António Barreto e com a Maria João Valente Rosa.

O Banco de Portugal não entende este negócio ou, pelo contrário, entende bem demais e tal como outros supervisores adia a inovação no setor?
Claramente não entende mesmo do negócio. Até por aquilo que vamos ouvindo do próprio regulador dizer. Eles constituem equipas para analisar os riscos que estas operações, por exemplo como as moedas criptográficas apresentam, por oposição às oportunidades. E veja a diferença entre os reguladores português e o suíço. O Suíço já emitiu legislação sobre as moedas criptográficas, aceites para efetuar o pagamento de impostos ou permitem operações com os ICOs. Eu respeito o meu regulador mas não concordo.

Qual é a sua opinião sobre as moedas criptográficas?
É boa. Temos de perceber porque razão foram criadas: poder transferir dinheiro para qualquer parte do mundo em segundos e a custar cêntimos. Hoje, em setembro de 2017, não encontra nenhum sistema no mundo que permita fazer isto a não ser aquilo que foi feito pelas Bitcoin, portanto em cima de Blockchain. Claro que eu não estou a dizer que isto é feito para fazer transferências de um ou 10 milhões. Os processos para abertura de conta não são fáceis, são morosos e pedem muita informação. Eu não consigo lá pôr um milhão de euros e desatar a comprar Bitcoins porque não é possível. Há aqui um processo longo. A moeda também foi construída com outras duas características que a tornam muito especial: são moedas deflacionárias porque se não houver troca de moeda diariamente ela vale menos e o valor dela depende da oferta e da procura.

Há pouco referiu que os supervisores não estão preparados para esta nova realidade…
Alguns estão. Os ingleses estão claramente mas o brexit prejudicou-os muitíssimo porque estavam na linha da frente para adoptar a nova directiva, a PSD2, que vai permitir fazer transferências instantâneas.

Acredita que esta diretiva vai tornar a vida mais difícil para a banca tradicional?
As pessoas estão a mudar cada vez mais rápido os seus comportamentos e, sobretudo, confiam umas nas outras. A nova banca, essa, vai aparecer com uma oferta muito diferenciadora. Eu vejo muitos amigos que já aderiram ao revolut, um cartão que permite multimoeda e permite fazer levantamentos de dinheiro sem pagar as taxas tradicionais de outros cartões de crédito. Ou um banco como o Number26, que oferece serviços ‘low cost’ e quase grátis. A melhor recomendação que nós podemos receber é via redes sociais. Ora o tema é: se eu consigo fazer tudo online por que é que a minha banca continua a obrigar-me a ir ao balcão para assinar um papel?

Como vê o setor da banca daqui a cinco anos?
Não tenho bola de cristal para dizer quem vai sobreviver. Mas não tenho duvidas de que vai ter um aspeto completamente diferente do atual. Quem vai sobreviver não sei. Aquilo que eu vejo acontecer é os bancos a consolidarem-se e isso é pior.

Porquê?
Têm menos flexibilidade e capacidade de reação. Um banco mais pequeno, mais leve vai conseguir vencer muito mais do que um banco muito grande, que não consegue mudar a sua estratégia de um dia para o outro.

De que forma a diretiva PSD2 vai permitir à Easypay crescer?
Brutalmente. Porque hoje o mercado, se nós olharmos para o mercado nacional, é dominado pelas referências multibanco e pelos cartões. Há poucas transferências bancárias e são complexas de se fazer, o cheque está a entrar em desuso e não há muitos débito diretos. Se olharmos internacionalmente, o mercado é dominado pelos débitos diretos e pelos cartões de crédito. Mas as transferências instantâneas vão ser uma ameaça claríssima aos débito diretos e aos cartões. A pergunta que eu faço é: para que é que eu vou precisar do cartão? Vamos andar com um telemóvel e a possibilidade de fazer contas e autenticações diretamente para a nossa conta. Os europeus preferem os cartões de débito aos de crédito, situação diversa nos EUA. Então se uma transferência instantânea me vai tirar os fundos em 10 segundos, não acha que as pessoas vão mudar o seu comportamento? Provavelmente, os cartões vão perder um grande terreno para as transferências instantâneas, que podem aparecer de um ponto de vista muito interessante em termos de ‘pricing’.

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