Semestre tremido segue-se a semestre excecional

O primeiro semestre de 2019 foi histórico, para os mercados financeiros, pela excecionalidade dos resultados. A segunda metade do ano vai estar dependente das promessas dos bancos centrais.

Traders work on the floor of the New York Stock Exchange (NYSE) in New York, U.S., December 19, 2018. REUTERS/Brendan McDermid

Os mercados financeiros vão estar dependentes daquilo que forem as intenções do presidente Trump e da estratégia antes das eleições de 2020. A guerra comercial EUA/China está a ser gerida com pinças e a servir para impulsionar ou refrear os mercados financeiros. Os bancos centrais, com destaque para a Reserva Federal vieram em socorro das economias, com promessas de descida de juro e de compra de ativos (quantitative easing). Estes são os grandes fatores que os analistas apontam como orientadores das grandes tendências para os mercados financeiros.

“No outlook para 2019 vai estar tudo muito dependente da evolução da guerra comercial, sendo normal que os agentes económicos recuperem alguma confiança, com os indicadores cíclicos a recuperarem um pouco mais”, afirma Nuno Serafim, administrador da IMGA/grupo CIMD. O economista-chefe do BCP, José Maria Brandão de Brito, vai mais longe e relembra o grande “drive” da economia mundial: os EUA e as eleições que vão acontecer em 2020. “O presidente Trump já tornou absolutamente claro que se a economia correr mal, a FED é a culpada”, diz o economista que sobre Trump diz que das duas uma: “Ou ele é um grande estratega ou tem sorte pois tudo lhe tem corrido bem”. E sustenta a sua afirmação com o facto de a administração Trump ter alertado a FED de que não deveria subir taxas e fê-lo ainda em meados de Dezembro, sendo que Trump está hoje na posição de dizer que avisou desde o início e com uma economia globalmente mais fraca “acaba por ter esse conforto”.

E ainda falando sobre a economia americana, o economista do BCP salienta que “a FED vai procurar não destruir a economia, tenderá a estimular mais do que a destruir e isso significa que os mercados poderão ter um bom segundo semestre, com destaque para um bom quarto trimestre porque a FED devido à gestão do ciclo político tenderá a esperar uma correção forte no mercado acionista para intervir de forma mais evidente”. Diz o gestor do BCP que o cenário de correção de ciclo dá à FED “legitimidade”, já que se não abrandar a economia terá dificuldade em justificar o corte de taxas e impor medidas a nível de QE. “Precisam de uma correção nos mercados e isso dá-lhes a ignição para eles acomodarem”.

E em termos de estratégia política para o presidente Trump o cenário é excelente “pois não lhe interessa nada que corra bem em 2019 mas em 2020 (eleições), pois será a meio do próximo ano que Trump “irá resolver os problemas das guerras comerciais com a China. Se fizesse agora o bónus esgotar-se-ia em dois ou três meses e interessa-lhe atuar nas vésperas das eleições”.

Onde alocar
“A incerteza vai continuar nas ações e obrigações ao longo do segundo semestre, com abrandamento nos yields e tudo isso poderá significar algum abrandamento económico nos próximos meses”, afirma Paulo Monteiro, diretor de Gestão de Ativos do Banco Invest. E nota este gestor que “os bancos centrais estão a baixar taxas de juro mas os ativos com risco estão historicamente baixos” e isso inclui obrigações high yield com spreads muito baixos. O que assistimos é a uma economia a abrandar com yields baixas e com ativos com risco a subirem muito e a grande questão é perceber “até que ponto podem subir mais”, diz o mesmo gestor. Acrescenta que não está em cima da mesa uma recessão, sendo que recomenda “reajustar a carteira, reduzir alguma posição, tomar mais-valias, não sair do mercado, aproveitar a volatilidade, sendo que pode existir receio que esta volatilidade no verão possa ser associada a menor liquidez”. Adianta que esta volatilidade poderá surgir em função das notícias em termos macro associadas a riscos políticos”. Remata afirmando que “daqui para a frente persistem incertezas e riscos, fazendo sentido olhar para as carteiras, manter a liquidez, não sair do mercado e aproveitar a volatilidade”.

Uma ideia semelhante é partilhada pelo economista-chefe do BCP, que embora não tendo a responsabilidade da alocação de portfólios, salienta que numa visão que tem a macroeconomia por base, acredita numa correção do equity no 3º trimestre, seguido de uma subida, recomendando “parquear o grosso do investimento em títulos defensivos, caso de utilities como as elétricas, águas, farmacêuticas e saúde e ainda grande distribuição”.

Os analistas João Lampreia, João Sá Água e Catarina Galhardo do BIG afirmam, em nota de análise, que o terceiro trimestre “deverá dar continuidade à desaceleração registada durante os primeiros três meses do ano, em ambos os blocos – desenvolvido e emergente -, cristalizando a intensificação do abrandamento económico global num contexto de crescente instabilidade geopolítica”. Acreditam ainda que os EUA poderão registar a mais pronunciada desaceleração, enquanto Reino Unido deverá continuar fortemente penalizado pela renovada incerteza em torno do Brexit”.

Salientam ainda os mesmos analistas que dentro da era da Quarta Revolução Industrial é relevante o conhecimento, algo que fica acima da teoria clássica do trabalho, capital e terreno, e isto significa quando se fala em alocação que apenas os países que atraem este tipo de pessoas “tendem a alcançar um desempenho superior, como as empresas com predominância de conhecimento na sua atividade core são privilegiadas pelos investidores em detrimento de negócios que assentam nos três clássicos fatores produtivos”. Salienta ainda o BIG que depois de um ano de 2018 em que quase todas as classes de ativos produziram retornos negativos, foi a alteração abrupta do sentimento que alimentou a forte valorização dos ativos de risco até maio de 2019. E com os ativos de refúgio a registarem ganhos isto significa, na ótica dos mesmos analistas que “pelo menos para alguns investidores, as preocupações em relação ao abrandamento económico mundial persistiram”.

Diferente da opinião de analistas anteriores, o BIG sustenta que os ativos de risco cederam e dão o exemplo do cobre que retraiu cerca de 10% desde o topo que aconteceu no início de abril. Frisam que os mercados acionistas recuaram significativamente e assistiu-se a uma rotação setorial “com predominância defensiva até o BCE e a FED reforçarem a promessa de estímulos monetários”. E concluem que apesar desses estímulos “duvidamos que os mercados acionistas consigam manter esta toada altista até ao fim do trimestre”.

Uma análise semelhante é feita pelo research da multinacional de seguros de crédito Coface. Afirmam os analistas em nota que o terceiro trimestre de 2019 foi marcada pela quebra do comércio mundial, que terá caído 0,7% em termos homólogos, sendo que os mesmos analistas acreditam numa ligeira recuperação neste 2º semestre. Em termos globais, o mundo deverá ter um crescimento menor com as previsões da instituição a estimarem que será da ordem dos 2,7% em 2019, quando em 2018 havia sido de 3,1% e acredita que estabilizará em 2020. Adianta que “as insolvências vão aumentar em dois terços dos países do mundo”, sendo que a área industrial é aquele que mais sofre com as quebras de atividade. O setor automóvel sofre com vulnerabilidades, sendo afetado pelos efeitos cíclicos negativos da economia em muitas regiões, a par de riscos políticos, caso do protecionismo, a par de mudanças estruturais ligadas a inovações, algo que o BIG também assinalou. Também as alterações comportamentais a nível do consumo europeu vão afetar os negócios, com regras antipoluição mais apertadas, a par das alterações nas cadeias de fabrico na Europa. A Coface fez o downgrade no setor automóvel em 13 países.

Também o Bankinter tem uma expetativa positiva para o 2º semestre. Diz Miguel Taledo de Sousa, diretor adjunto do Bankinter Gestão de Ativos Portugal, que a expetativa é de um segundo semestre de 2019 “genericamente construtivo em ativos de risco, beneficiando de uma postura mais “dovish” dos principais bancos centrais dos dois lados do Atlântico, e de um resiliente ciclo económico nos EUA, que continua a ser o motor da economia global”. A Coface antecipa um abrandamento da economia norte-americana, com um crescimento estimado de 2,5% para este ano e apenas de 1,3% para 2020, o que compara com uns exponenciais 2,9% registados em 2018. Adianta que a economia dos EUA também “deverá sofrer com um abrandamento da procura interna”. E recordam que no momento atual as empresas chinesas ainda não repercutiram custos acrescidos a nível alfandegário que a administração Trump quer impor sobre as importações feitas pelos EUA. Isto significa que a acontecer o aumento de custos de importação provocadas pela guerra protecionista, as empresas e consumidores americanos irão sentir ao longo dos próximos meses o aumento dos preços. Claro que há setores protegidos nos EUA, como seja o agrícola e agroindustrial e que receberão subsídios públicos para atenuar o impacto da retaliação chinesa nas compras que faz aos EUA. Registe-se que no 1º trimestre deste ano as vendas da China para os EUA já tinham caído 10% em termos homólogos.

Claro que este clima tem minado a confiança dos empresários na economia. De salientar que o índice de confiança na economia na China e em muitos outros países tem vindo a cair ao longo do ano passado, sobretudo no setor industrial. A Coface ao integrar os dados da confiança na economia e os dados das insolvências antecipa que o crescimento mundial para 2019 se situará nos 2,7%, o que contrasta com os 3,1% registados em 2018.

A história do protecionismo
A economia global começou a abrandar de forma notória em 2018 com a importante exceção dos EUA. Essa exceção – recorda Brandão de Brito do BCP – resultou dos estímulos implementados pela administração Trump no início de 2018, tendo o presidente andado um ano a gerir o dossiê e tendo lançado um programa que foi maior do que tinha inicialmente preconizado.

E foi por causa desta circunstância em que os EUA pareciam imunes ao abrandamento que começou na China e se transmitiu à Europa um sentimento de recuperação. Entretanto, a FED intensificou o processo de normalização da política monetária, elevando as taxas de juro e retirando liquidez ao sistema financeiro. Isto provocou a apreciação do dólar e, naturalmente, uma subida das taxas de juro do dólar. E esta evolução teve um impacto qualitativamente semelhante a outras economias mas dessincronizado. Esta combinação tóxica levou à apreciação do dólar e à subida dos juros americanos e, realça o economista-chefe do BCP, que foi tóxico para os mercados emergentes porque estes para baixarem o custo financeiro nas fases boa do ciclo, endividam-se em dólares”. E isto porque as taxas de juro do dólar são mais baixas do que as taxas dos mercados emergentes, sendo que o serviço da dívida é mais barato pela taxa de juro e pela via cambial. Acontece que quando as taxas de juro começam a subir e o dólar se aprecia, o que era uma vantagem passa a ónus, com os refinanciamentos a terem de ser feitos a taxas de juro mais altas e o dólar valorizado é muito mais caro. Este cenário leva a um endurecimento nos mercados emergentes com quebras de investimento e falências e isso afetou a China.

A ligação à Europa dos emergentes, explica ainda o mesmo interlocutor, é feita pelas exportações, pois as vendas europeias para os mercados emergentes são relevantes, nomeadamente para os motores europeus, caso da Alemanha e França. E este facto explica o abrandamento da economia europeia no início de 2018. Pensava-se que fosse temporário porque no início foram poucas as economias afetadas e acreditava-se que o momento estivesse marcado pela economia americana, a par de que a economia ainda sofreria com o tema do diesel na Alemanha. Acreditava-se que fosse algo temporário. Acontece que a apreciação do dólar e as subidas dos juros que também afetou a economia americana, não foram suficientes para fazer soar as campainhas de alarme. A miopia instalou-se porque genericamente a economia americana estava a acelerar. Os analistas insistiram em não olhar para os segmentos do ciclo da economia dos EUA que são precisamente mais sensíveis à taxa de juro, caso do imobiliário, automóvel e bens duradouros, sendo que estas variáveis tendem a antecipar o ciclo e estavam a sinalizar um abrandamento da economia dos EUA. Ora à medida que o estímulo orçamental se foi dissipando, o ciclo perdeu vigor e a FED só muito tarde, no início de 2019, percebeu a dinâmica, ainda sobe taxas na segunda metade de dezembro de 2018 quando já havia sinais de que a economia não estava bem.

O mercado acionista reagiu muito mal, estava a perceber que a economia estava a piorar e a FED estava a endurecer a política, ao mesmo tempo que se assistia a uma forte correção no mercado acionista. Ora a FED é muito sensível ao mercado acionista americano e na primeira semana de janeiro deste ano Jerome Powell, o presidente da Fed, vem dizer que já não sobe as taxas, quando em dezembro tinha três ou quatro subidas de taxas implícitas. E, para além de afirmar que já não sobe taxas, sinalizou que as poderia descer, algo que os mercados acionistas adoram.

Os mercados percebem que os juro não sobem e que vêm aí mais políticas de QE com injeções de liquidez. Os mercados globalmente já anteciparam que a descida de taxas é suficiente para estimular a economia ou haverá medidas de QE. E são estas expetativas que explicam o funcionamento dos mercados no primeiro semestre. Paulo Monteiro, diretor no Banco Invest, segue o mesmo raciocínio. Salienta que a par das ações, também a dívida pública core com mais ou menos risco gerou excelentes resultados. O Euro Stoxx 50 subiu quase 16%, o S&P em euros quase 18%, o FTSE 100 foi aos 10% de ganhos, enquanto o PSI20 e o Ibex subiram menos, mas andaram entre os 8%e os 9%.

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