“Só pode ser brincadeira de mau gosto”. Pescadores incrédulos com declarações de diretor-geral da Comissão Europeia

“Só pode ser brincadeira de mau gosto sugerir o apertar ainda mais o cinto a quem, nos últimos cinco anos, já o apertou até ao mínimo possível, com reduções brutais da sua atividade, quer no que respeita ao período autorizado de pesca, quer na dimensão das capturas anuais autorizadas”, manifestou em comunicado a Associação Nacional das Organizações da Pesca (ANOP) do Cerco.

As organizações da pesca da sardinha consideraram hoje como “brincadeira de mau gosto” as declarações à agência Lusa do diretor-geral das Pescas da Comissão Europeia ao defender o “apertar mais a cintura” às capturas daquela espécie.

“Só pode ser brincadeira de mau gosto sugerir o apertar ainda mais o cinto a quem, nos últimos cinco anos, já o apertou até ao mínimo possível, com reduções brutais da sua atividade, quer no que respeita ao período autorizado de pesca, quer na dimensão das capturas anuais autorizadas”, manifestou em comunicado a Associação Nacional das Organizações da Pesca (ANOP) do Cerco.

A ANOP Cerco relembrou que “essas reduções já estão a colocar em causa a sobrevivência do setor da pesca da sardinha em Portugal”.

“Se quisermos ter uma pesca da sardinha que continue nos próximos anos, vai haver um período em que é preciso apertar a cintura e isso é muito difícil”, afirmou em entrevista à agência Lusa, em Bruxelas, o diretor-geral dos Assuntos Marítimos e Pescas (DG-MARE), João Aguiar Machado.

Para associação representativa do setor do Cerco, as declarações são “incompreensíveis”, quando, numa reunião em Bruxelas, João Aguiar Machado manifestou a sua satisfação pelos bons dados científicos do ano de 2018, já que ainda não foram revelados resultados das avaliações científicas de 2019, que o setor aguarda com otimismo.

“O setor acredita atingir uma dimensão próxima das 200.000 toneladas, em termos de biomassa com mais de um ano”, porque “o recurso está em franca recuperação”, apontou a associação.

Se assim for, demonstra “a capacidade do Plano Plurianual de Gestão e Recuperação da Sardinha Ibérica (2018-2023) em alcançar o nível de sustentabilidade adequado às exigências definidas pela Política Comum de Pesca em matéria de gestão de recursos”, que é de 80% até 2023 e não 50%, esclareceu a ANOP Cerco.

Além disso, “viabiliza acréscimos nas possibilidades de captura no corrente ano de 2019”, tal como o setor vem a exigir.

Numa entrevista de balanço do cargo, que deixa em meados de setembro para chefiar a missão permanente da União Europeia (UE) junto da Organização Mundial de Comércio (OMC), o responsável assinalou que o ‘stock’ de sardinha em Portugal e Espanha está “em mau estado”, situação que tem obrigado os países a reduzir as quotas de captura para assegurar este recurso.

Para este ano, é fixado um limite anual de capturas de 10.799 toneladas, a dividir por Portugal e Espanha, podendo a quota vir a ser alterada em função dos resultados dos cruzeiros científicos.

As organizações da pesca da sardinha de Portugal e Espanha têm vindo a defender um total de capturas de 15.425 toneladas, correspondentes a 10% da estimativa de ‘stock’ existente, fixada em 154.254 toneladas no último parecer do Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES, na sigla em inglês) para 2019.

Em 2018, o setor atingiu a quota de pesca mais baixa de sempre, de 12.000 toneladas reduzidas ao longo do ano para 9.000, quando em 2008 capturava 101.464 toneladas de sardinha.

A pesca da sardinha foi retomada no dia 03 de junho deste ano, depois de ter estado suspensa desde meados de setembro de 2018.

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