25 de abril: “Soubemos conservar o jardim”, diz José Adelino Maltez

José Adelino Maltez, professor e investigador, tende a considerar que Descolonizar, Democratizar, Desenvolver não se cumpriu. Ou então cumpriu-se com os solavancos próprios das suas idiossincrasias.

Entre tantas outras coisas que por aqueles dias se foram prometendo ao povo na rua, o regime saído da Revolução de Abril de 1974 assegurou que cumpriria a tripla função de Democratizar, Descolonizar, Desenvolver, os célebres 3D, uma espécie de ‘road map’ ou de Constituição antes de ser reescrita e votada por quase todos.

José Adelino Maltez, professor universitário, investigador de ciência política e mação, responde repentinamente que “não”, nada disso foi cumprido, até porque eram “ideais e, na prática, os ideais são outra coisa”. “Por nossa culpa falta democratizar, mas democracia nunca existiu porque o povo nunca mandou”. Salva-se, na sua ótica, “o ganho de consciência”, que talvez tenha sido “o melhor” que, desse lado, se conseguiu.

E conseguiu-se algo que não acontece todos os dias nem em todo o lado: “fizeram-se eleições tão livres que, ao contrário do costume, foram ganhas por quem não estava no poder, pelo PS, PPD e CDS”, numa altura em quem mandava era o PCP.

Já a descolonização, que em teoria foi praticada e cumprida, “continua a ser uma coisa muito polémica, a envolver uma discussão profunda entre o que esteve bem e o que esteve mal”, sem que daí resulte “nada de consensual”. De qualquer forma, assegura, “o problema deixou de ser nosso”, passou para os países que se estabeleceram do outro lado da Cortina de Ferro.

Mas descolonizar quer dizer outras coisas, e José Adelino Maltez recorda a questão da Catalunha, que de certo ponto de vista é um país colonizado. “Nem entre povos irmãos se cumpre a descolonização”, afirma.

O desenvolvimento é outro problema, dado que “nunca houve um modelo estabelecido. A parte boa é que podemos discutir esse modelo”, por muito que no final não sejamos nós a escolhê-lo.

E depois há aquilo das flores nas pontas das espingardas e das canhoneiras dos tanques – “uma imitação” de outras revoluções, que tendem sempre a adotar flores para acompanhar os tiros (no caso de 1974 foi para os substituir). Mesmo que não se tenham cumprido os preceitos dos 3D na sua essência, cumpriu-se o que se pôde: “soubemos conservar o jardim”, disse. Mesmo que “não conte seguir em nenhuma manifestação do 25 de Abril, porque não gosto de más companhias”.