Teremos o “poujadisme”

O movimento político e social que vigorou entre 1953 e 1958, e pretendia a defesa de comerciantes e artesãos contra a chaga dos impostos, desapareceu no arranque da V República. Teve apenas um sobrevivente: Jean-Marie Le Pen.

Os “coletes amarelos” em França fazem estragos e ganham, a direita sobe dramaticamente na Andaluzia e em Portugal pouco ou nada acontece. As maiores preocupações são as condições de trabalho dos guardas prisionais e a pontualidade dos deputados.

Os temas de fundo passam ao lado. Vivemos numa redoma. Portugal está em contraciclo. E com Ayamonte aqui tão perto nem sequer nos preocupamos. A Andaluzia tem condições para criar uma geringonça à direita com os extremistas do Vox a crescerem de 0,5% para quase 11% nos votos, um PSOE a ganhar com mínimos, um Ciudadanos a subir e um PP a cair para se tornar num partido do centro no contexto político andaluz. Mais para leste temos França, que desde a revolução jacobina sempre nos influenciou. Nas últimas eleições desapareceram os partidos tradicionais e apareceu Macron, e um sistema inorgânico de protesto arrancou a toda a velocidade.

Em Portugal corriam estudos sobre intenções de voto e Costa tinha condições para uma maioria absoluta. O país assumia-se como o único na Europa onde os mesmos partidos mandam desde há 40 anos. A nossa história diz-nos que gostamos de grandes ciclos de 40 anos de governação homogénea. E neste país onde o poder é controlado por informação por vezes pouco pluralista, olhamos Paris como se estivéssemos a usufruir de um filme à Hollywood.

Mas será que os dois mil e poucos quilómetros de distância são suficientes para não sermos influenciados? Para além do vandalismo, o que realmente está por debaixo desta revolta é um movimento pequeno burguês que nos sustenta quando a França compra a nossa dívida. E será que eles, que estão dentro da locomotiva franco-alemã, vão querer continuar a sustentar um país cuja maior discussão política é tentar perceber se Catarina ou Jerónimo vão para o Governo?

Estamos em contraciclo total. As pessoas e os estrangeiros, em particular, parecem gostar. Para os franceses este é um país de casas com preços comportáveis, onde existe uma geringonça à esquerda que ironicamente está no poder graças ao neoliberalismo.

Mas somos diferentes. Não tivemos as duas dezenas de golpes fascistas como registaram os franceses no século passado. No entanto, os “coletes amarelos” não são apenas os contestatários do aumento do preço dos combustíveis, são mais do que isso. Têm raízes. Lembremos a história com o “poujadisme”, um movimento político e social que vigorou entre 1953 e 1958, e que inicialmente pretendia a defesa de comerciantes e artesãos contra a chaga dos impostos. Depois virou termo pejorativo e desapareceu no arranque da V República, registando apenas um sobrevivente: Jean-Marie Le Pen.

E nós que não estamos assim tão longe continuamos sem rotativismo. O PS faz terceiras escolhas para o Governo e o PSD anseia ser bloco central quando deveria ser refúgio. Tal como em França o eleitorado vai querer outra narrativa, e tal como na Andaluzia os portugueses vão querer refletir a grandeza de Portugal.

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