Trabalhadores da NewSpring fazem abaixo-assinado contra reivindicações sindicais

A contestação ficou expressa num abaixo-assinado remetido à administração, em que os trabalhadores repudiam “o ambiente de conflitualidade, medo e perturbação” que se tem gerado em resultado da atividade sindical. O sindicato afirma que o documento em causa é “ilegítimo” e foi conseguido pela administração através de intimidação dos trabalhadores.

Brian Snyder/Reuters

Mais de duas centenas de trabalhadores do contact center em Évora da consultora NewSpring, subcontratada pela Fidelidade, em Évora, subscreveram um abaixo-assinado em que garantem não se rever nas reivindicações e formas de luta do Sindicato Nacional dos Profissionais de Seguros e Afins (Sinapsa). Nesse documento, enviado à administração, repudiam “o ambiente de conflitualidade, medo e perturbação” que se tem gerado em resultado da atividade sindical.

“Os signatários do abaixo-assinado remetido à administração da NewSpring no dia 13 de dezembro de 2018, vêm por este meio e mais uma vez, face a mais uma ação do Sinapsa, relembrar que a generalidade dos funcionários do contact center da NewSpring em Évora não se revê nas ações movidas por este sindicato”, lê-se num comunicado dos colaboradores do contact center da NewSpring de Évora, a que o Jornal Económico teve acesso.

Carla Afonso, uma das trabalhadoras da NewSpring de Évora que assinou o abaixo-assinado, explicou ao Jornal Económico que as reivindicações do Sinapsa vão “muito além” daquilo que pedem os trabalhadores da empresa subcontratada pela Fidelidade. “Estas reivindicações são uma utopia. Não podemos criar ilusões com condições que sabemos não vamos ter”, afirma.

Entre as reivindicações do Sinapsa está o aumento do subsídio de alimentação para os 10 euros. Atualmente, os trabalhadores recebem, em média, menos de 5 euros por refeição e só os trabalhadores seniores é que chegam a auferir de 6,20 euros por refeição.

“É preciso ter os pés assentes na terra. Queremos melhores condições de trabalho, mas as que temos não são assim tão más como dizem os sindicatos e isso pode pôr em risco os nossos postos de trabalho”, explica Carla Afonso.

A par com a insatisfação face às reivindicações do Sinapsa está ainda a contestação pelo facto de, entre as reivindicações, “nunca se falar na NewSpring, mas sempre da Fidelidade”. O grupo de trabalhadores, que garante representar “a maioria dos trabalhadores deste contact center“, diz-se pronto para dialogar com a administração da NewSpring “para ajudar a melhorar o clima laboral e a salvaguardar a estabilidade dos postos de trabalho nesta cidade”.

Num comunicado datado de 8 de fevereiro, o Sinapsa alega que a Fidelidade está a subcontratar trabalhadores. “Excluídos de direitos fundamentais, a Fidelidade agrava a situação excluindo-os também dos direitos consignados no acordo coletivo de trabalho”, acusa o sindicato, dando conta que, além da maior parte dos trabalhadores receberem o salário mínimo, “não têm seguro de saúde, trabalham 40 horas semanais, gozam 22 dias de férias”.

“A companhia indigna-se com uma das reivindicações apresentadas: melhoria da saúde e segurança no
trabalho, porque desconhece que estes trabalhadores apresentam uma elevada prevalência de doenças cancerígenas, auditivas, depressões e problemas nas cordas vocais. Perante a apresentação de relatórios da medicina no trabalho que atestam a doença, a empresa insiste na exposição do trabalhador ao risco. Por isso afirmamos que a saúde e segurança é um problema grave no Centro de Atendimento da Fidelidade”, lê-se ainda no comunicado.

Sinapsa diz que abaixo-assinado “não é legítimo”

Contactado pelo Jornal Económico, o Sinapsa diz que as reivindicações são “claras e justas” e lembra que foram os trabalhadores que pediram para serem representados por aquele sindicato. Quanto ao abaixo-assinado dos trabalhadores que não se sentem devidamente representados, a dirigente sindical Carmen Nunes diz que tal “não foi conseguido de forma legítima” e que há agora membros sindicalizados que se “envergonham” de ter assinado o documento.

“Estamos a falar de um abaixo-assinado em que foram as chefias que andaram a interromper o trabalho dos trabalhadores para que assinassem o documento, sob pena de serem despedidos caso não o fizessem”, acusa a sindicalista Carmen Nunes.

Por seu lado, a administração da NewSpring sublinha que o Sinapsa tem tido “uma reduzida adesão” entre os trabalhadores do seu contact center em Évora e garante que está disponível para se sentar à mesa de negociações com os trabalhadores e os sindicatos.

“A NewSpring está e sempre esteve aberta a um diálogo constante e construtivo com todos os legítimos representantes dos seus colaboradores, cumprindo escrupulosamente as normas laborais em vigor, orgulhando-se de poder ostentar um nível de satisfação dos seus colaboradores no contact center Newspring de Évora, recorrentemente superior a 90%, num inquérito regular, anónimo e devidamente protegido em termos de sigilo”, lê-se num comunicado da administração da consultora.

A NewSpring Services é uma empresa do grupo HCCM, que contava, no final de 2018, com cerca de 1.400 trabalhadores em Portugal, em áreas de prestação de serviços de IT, BPO e contact centers.

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