União Europeia substituirá austeridade por estímulos devido a Trump

Bruxelas encorajou os parceiros comunitários a aprovar medidas de estímulo de crescimento do PIB europeu, no valor de 50.000 milhões de euros.

A vitória de Donald Trump, vista pela Europa como a vitória do populismo, está a levar a Comissão Europeia a mudar a agulha, e estudar substituir a austeridade por medidas de estimulo à economia.

“Mudança de austeridade da UE por estímulos após a vitória de Trump”, foi publicado ontem no “El Economista”. O artigo diz que depois de anos de austeridade, a União Europeia prepara-se para consumar uma clara mudança para o campo das políticas expansionistas, com um duplo objetivo: para contrariar os potenciais efeitos negativos sobre o PIB do mais que provável protecionismo norte-americano; e para combater, com o investimento e, se possível redução de impostos, o avanço do populismo, que foi erguido na voz de uma classe média atingida pela crise e que está determinada em votar em políticos que são anti-sistema. Nesse sentido, Bruxelas encorajou os parceiros comunitário a adotar medidas de estímulo do PIB europeu no valor de 50 mil milhões de euros.

Uma das primeiras medidas anunciadas pelo Trump, na campanha após a vitória do último dia 8, foi que vai estimular a economia interna dos EUA com uma injeção de 500 mil milhões de dólares para investir na área de infra-estruturas. Mais típica de um governante socialista do que de um líder de direita, ou mesmo de extrema-direita como apelidaram os media europeus. Essa medida terá um impacto directo no crescimento do PIB dos EUA.

Esse impulso será acompanhado por uma clara aposta nos produtos made in América, o que irá melhorar a posição das empresas no país, mas terá um impacto significativo sobre as exportações do resto do mundo, especialmente os seus parceiros comerciais. E aqui está o problema: entre os principais estão o Reino Unido, mesmo na UE, França, Itália e Espanha.

Não é de admirar, portanto, que o Vice-Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vitor Constâncio, tenha alertado que a recuperação na Europa vai continuar fraca  – o crescimento económico não vai chegar a 2% este ano ou nos dois próximos – e pode sofrer nova deterioração à mercê de “incertezas” como a política que irá realizar Trump e o seu possível impacto sobre os mercados emergentes.

“Será necessário implementar medidas de estímulo e reformas destinadas a melhorar a competitividade na zona euro”, disse Constâncio num aviso claro à Comissão Europeia e aos países defensores de políticas de austeridade como a Alemanha, a Áustria, a Finlândia e a Holanda, entre outros. Não é nova a mensagem do BCE, que leva mais de um ano de avisos à necessidade de estimular a economia europeia em crise e aumentar os salários para promover o consumo e, em última análise, aumentar a inflação.

O calendário mais populista
Por detrás da mudança de política das instituições europeias não estão apenas razões económicas, mas também políticas. Trump ganhou as eleições norte-americanas, apelando à classe média, a mais afectada pelos efeitos da crise económica. O mesmo tinha sido explicado para a vitória do Brexit no referendo britânico de 23 de junho.

No seio da UE e entre os líderes das principais economias do continente europeu há grande preocupação que tenha sido acendido o pavio anti-sistema com a vitória de Trump. Pois a verdade é que nem a resposta social-democrata à crise, conduzida por Obama; nem a mais ortodoxa, praticado deste lado do Oceano Atlântico têm resultado. Os partidos UKIP, na Inglaterra, a Frente Nacional na França, a AFD na Alemanha; o Movimento 5 Estrelas na Itália, Sryza na Grécia e Podemos em Espanha têm registado um boom de eleitores que poucos acreditavam ser possível há um par de anos. Em Portugal poderia dar-se o exemplo do crescimento do Bloco de Esquerda, hoje um dos que sustentam a maioria parlamentar.

Diz o “El Economista” que hoje, de fato, os governos de tom populista tomaram o poder na Grécia (o partido de esquerda Syriza) e na Hungria, onde o governa o ultranacionalista Viktor Orban.

Este Dezembro, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, joga a sua sobrevivência política num referendo à reforma constitucional. Se for aprovado, vai mudar a constituição italiana e reformar os poderes do parlamento de duas câmaras, com o senado a perder alguns dos seus poderes para a câmara de deputados, e tornando mais difícil a queda do governo.

 Os apoiantes do referendo defendem que a mudança vai simplificar o processo democrático e a implementação de leis, assim como trazer estabilidade política, enquanto alguns dos seus críticos acreditam que o referendo vai criar um estado mais autoritário e uma maior concentração de poderes.

E é o mês em que a direita radical pode tomar o poder nas eleições na Áustria à boleia da crise aberta pela onda de refugiados.

No próximo ano, a França com Marine Le Pen líder nas sondagens, realiza eleições. E até mesmo a chanceler alemã, Angela Merkel, pode acabar perdendo o poder perante o surgimento da AFD e dos partidos mais à esquerda.

Antes de consumar uma mudança tão radical, as autoridades europeias estão dispostos a tentar reconquistar o apoio da classe média num momento em que a taxa de desemprego na UE continua à beira dos 10 por cento e crescimento económico mal ultrapassa o 1,5%; mas em que o défice abaixo de 3 por cento e da dívida pública abaixo de 90 por cento, parecem estar controlados.

O medo de um tsunami populista nas eleições do próximo ano na França, Alemanha e Holanda levou a Comissão Europeia a anunciar o fim da austeridade. A prová-lo está a disponibilidade para apoiar estímulos fiscais que cada vez mais vozes recomendam à Europa.

Bruxelas propôs pela primeira vez na última quarta-feira uma orientação orçamental expansionista de 0,5 por cento do PIB em 2017 para o conjunto da zona euro (50.000 milhões de euros). No entanto, o fato é que o impulso será significativamente menor, uma vez que a instituição presidida por Jean Claude Juncker espera que a área do euro mantenha uma posição fiscal positiva de cerca de 0,2 por cento no próximo ano, sem qualquer medida adicional.

Este passo tímido é mais simbólico que  outra coisa, uma vez que o renascimento da política fiscal expansionista é agora limitado pela necessidade de não aumentar a dívida; a falta de uma almofada Europeia para este estímulo adicional; e a oposição da Alemanha, o único com o espaço fiscal necessário para liderar essa mudança.

No entanto,  mesmo o mais ferrenho da ortodoxia orçamental pode encontrar obstáculos sérios na hora de defender a sua posição. O ministro alemão adjunto estrangeiro, o social-democrata Sigmar Gabriel, já apelou publicamente “o fim da austeridade na Europa o mais rapidamente possível”, perante o silêncio de Angela Merkel e do seu poderoso ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble.

Nos Estados Unidos são esperadas subidas dos juros pela Fed já em Dezembro, e os analistas acreditam que é uma questão de tempo até que o contágio chegue à Europa, isto apesar do prolongamento do programa de estímulos anunciados pelo BCE esta semana.

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