Ver ao longe

Os recentes anúncios de Conservadores e Trabalhistas apenas confirmam o que se vem desenhando ultimamente: vamos ter um novo aumento de dívida pública mundial nos próximos anos.

Quando o Dow passa a barreira dos 28000 e se fala do processo de impeachment a Trump, que tem à frente o democrata Adam Schiff (Trump referiu-se-lhe por um trocadilho do nome, começando por ‘little’), a quem o Wall Street Journal chama a estrela da Impeachment TV, no papel do (pseudo)constitucionalista que quer redefinir o significado de “bribery” para conseguir pôr o presidente lá dentro, a campanha para as eleições inglesas aquece com os protagonistas a atirarem dinheiro ao povo, ou como diz Simon Wilson, “a abrirem as torneiras”.

Se o governador Morris, na Convenção Constitucional de 1787, exemplificou “suborno” com o pagamento de 230 mil libras por ano e o envio de 60 navios e quatro mil soldados para lutar com os holandeses proposto por Luís XIV a Carlos II para se converter ao Catolicismo, hoje Corbyn quer nacionalizar a British Telecom (BT) e instituir a internet de banda larga gratuita, renegando a herança de Thatcher, que privatizou a BT. Já o chanceler do Tesouro, Sajid Javid, depois de prometer um aumento real da despesa pública de 4,4%, anunciou mais 100 mil milhões de libras em cinco anos para investimento.

Tudo somado, estes anúncios de Conservadores e Trabalhistas apenas confirmam o que se vem desenhando ultimamente: vamos ter um novo aumento de dívida pública mundial nos próximos anos, que o Institut of International Finance estima que ultrapassará os 70 milhões de milhões de dólares em 2019. A dívida total (incluindo empresas e famílias) excederá os 255 milhões de milhões, mais de três vezes o PIB mundial. Esta progressão deve-se em dois terços a EUA e China, e foi facilitada pelo custo reduzido da dívida – nalguns países a dívida soberana tem até taxas negativas.

Em França, onde Macron “cherche l’idylle avec les édiles”, que é como quem diz, quer destruir a imagem que é o presidente só da capital, vai haver uma emissão recorde de dívida em 2020, paralelo apenas à italiana: de 230 a 245 mil milhões de euros, um quarto das emissões na zona euro nesse ano, projetadas em 900 mil milhões; em Itália, a queda da taxa este ano vai em 150 pontos base (chegou a estar acima da grega, nos empréstimos a cinco anos). A Alemanha deverá ficar por metade deste valor, mantendo o stock. A Espanha, pouco acima dos 100 mil milhões, mesmo assim mais que Benelux, Portugal e Irlanda somados.

O problema é que as taxas de juro estão a níveis historicamente baixos, portanto a exposição a um choque não antecipado deparar-se-á com a incapacidade da política monetária impedir a sua subida, particularmente atendendo aos níveis elevados (e crescentes) de endividamento. A Reserva Federal americana, em especial, não vai voltar a descer a taxa de juro tão cedo. Outro risco cai sobre os reembolsos dos países em desenvolvimento, que em dois anos deverão situar-se acima dos nove milhões de milhões de dólares. A prudência impõe-se, na boa (aparentemente esquecida) tradição britânica: “wait and see”.

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