Vergonha

Quase 11 anos depois de uma crise financeira, Portugal continua a defender interesses e quintas em detrimento dos contribuintes e das instituições que cumpriram com os seus deveres.

Existem vergonhas difíceis de esconder e uma delas é a do Montepio. Há muito que se sabe que o banco precisa de capital, por isso tem em curso vendas de activos e captação de capital junto de investidores.

Esta situação arrasta-se há anos, porque os governos ou autoridades de supervisão não querem intervir no que sabem ser um problema que teria impactos na economia. É fácil criticar o Banco de Portugal nas decisões de intervenção, forçadas ou não, mas agora que falamos da responsabilidade do Ministério do Trabalho, a inação significa compra de tempo para que outros resolvam o problema. Neste caso os outros são as IPSS ou as Misericórdias, que por acaso também recebem dinheiro do Estado. Ou seja, este parece ser um negócio que de uma forma ou de outra será o contribuinte a pagar.

Antes de sair de bolsa, o Montepio estava avaliado em pouco mais de mil milhões de euros. Com o lançamento da OPA pela Associação Mutualista, que gastou pouco mais de 100 milhões de euros na aquisição das unidades de participação que não eram por si detidas, o valor do banco aumentou em 1.400 milhões de euros na bolsa. De repente o Montepio valia mais do que o BPI, no que foi um fenómeno incrédulo para quem anda há décadas no mercado e nesse dia esqueceu tudo o que aprendeu acerca da avaliação de empresas.

Esta operação permitia sobrevalorizar o banco para a entrada de um privado, ao mesmo tempo que resolvia o problema de eventuais clientes que tinham comprado unidades de participação a crédito, evitando o registo de imparidades com clientes.

Não restam dúvidas que alguém pagou mais por um activo que não vale, corroborado pela avaliação independente. Salvou-se a Misericórdia, pelo menos de entrar sozinha neste negócio. O Ministério do Trabalho, a quem caberia encontrar uma solução, não quer o Governo associado a mais um foco de instabilidade no sector financeiro. Ao invés, aceita que entidades que estão reservadas à acção social se vejam confrontadas com um convite estranho – o apelo a uma relação emocional com um banco.

Pergunto-me de que valem milhares de páginas de regulação, MIFID II e de códigos de valores mobiliários, que pretendem alertar os investidores para os riscos das empresas e dos mercados, quando depois temos apelos a investimento emocional em activos de risco?

Quase 11 anos depois de uma crise financeira, Portugal continua a defender interesses e quintas em detrimento dos contribuintes e das instituições que cumpriram com os seus deveres. O saco sem fundo em que se tornou o Fundo de Resolução é o exemplo do efeito de contaminação da boa moeda pela má moeda. Os 40 anos que as instituições têm para pagar não irão chegar para liquidar uma dívida alheia. Felizmente, contamos agora com as Misericórdias para não aumentar este buraco. Em vez de mais regulação e de areia para os olhos, diria que é tempo de encarar os problemas de frente.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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