Viajar costumava ser um prazer

Descobrir sítios novos, rever amigos e familiares, descansar, mudar de ares, ou mesmo deslocações por motivos profissionais – há poucas sensações mais fantásticas na vida do que viajar. O problema é que, nos últimos anos, viajar em Portugal tem vindo a tornar-se numa experiência cada vez mais traumática.

No fim de semana passado, o calor abrasador foi excessivo para o sistema ferroviário. Entre relatos de desmaios de crianças e idosos, a CP deixou de vender bilhetes para o serviço Alfa Pendular. Sim, as condições climatéricas eram extremas, mas puseram novamente a nu as deficiências da operação que liga as principais cidades do país.

Outrora pontual e confortável, o Alfa é hoje sinónimo de atrasos e falhas, sejam elas no sistema de ar condicionado, ou simplesmente devido às frequentes greves na CP ou na IP – Infraestruturas de Portugal. A última má notícia foi a supressão permanente da primeira ligação Lisboa-Porto do dia, a única que permitia chegar à Invicta antes das nove horas da manhã.

No_aeroporto Humberto Delgado não é mais risonha. As filas para o check-in, para a tortura que é a zona de segurança e depois para o embarque tornam a passagem pelo recinto num percurso de obstáculos. O Terminal 2, sempre cheio e com espaço claramente insuficiente, é um caos e brinda-nos com um anedótico regresso ao passado – um pequeno passeio a pé até à aeronave.

Se as infraestruturas são inadequadas, as companhias aéreas também não ajudam. Os dias em que a TAP era vista como uma operadora fiável já vão longe. Hoje, com atrasos e cancelamentos frequentes, até justifica a antiga anedota semi-cruel – Take Another Plane.

Nos transportes urbanos e suburbanos, a rotina diária de ir para o local de trabalho é já por si uma tarefa árdua. O metro de Lisboa é outro símbolo de atrasos e sobrelotação. Na Carris, a condução é frenética, mas os autocarros quase nunca chegam a tempo. Em linhas ferroviárias suburbanas importantes, como as de Cascais e Sintra, a falta de material e de dinheiro para peças levou a CP a cortar comboios na hora de ponta.

O custo em termos de produtividade é enorme. Passamos demasiado tempo à espera de transporte, tempo esse  que é ‘roubado’ ao trabalho ou ao descanso. A modernização das infraestruturas requer, claro, investimento público. O problema é que, após o excesso e o trauma que vivemos na última década, hoje estamos em tempos de dieta nesse campo, pois o imperativo é mostrar contas sólidas a Bruxelas.

No entanto, não deixa de ser óbvia uma inconsistência entre aquele que é um dos motores de crescimento do país – o turismo – e os anacrónicos e cansados sistemas de transporte. Tal como nós, os turistas também sofrem com os atrasos, cancelamentos e avarias. Não era necessário ir tão longe como o plano socrático de ter um TGV, mas não será possível fazer um simples upgrade dos serviços da CP? Se não é preciso um novo aeroporto gigantesco na Ota ou em Alcochete, não poderemos acelerar a solução Portela +1?

Queremos mesmo perder a oportunidade de manter a quota de mercado que ganhámos no turismo? Queremos mesmo continuar a perder o nosso tempo e paciência em infindáveis filas e esperas? Não temos mais que fazer?

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