Vieira de Leiria: “Arte xávega” e turismo para recuperar do fogo

Depois do inferno vivido com os fogos do outono do ano passado, a terra vai renascendo para nos mostrar, de novo, as histórias que a fizeram, o que é hoje e a natureza que lhe dá caráter, onde a floresta encontra o mar. Vieira de Leiria é um desses locais e merece ser revisitado.

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“… O dia está luminoso e vivíssimo de claridade, e já se sente o mar. Em Vieira de Leiria há uma Santa Rita de Cássia seiscentista, que o viajante vai espreitar e que por si mesma merece a visita. Aí está agora a praia da Vieira, toda aberta para sul, a foz do Lis logo acima. Há barcos na praia, de curvas e afiladas proas, os longos remos postos ao través, à espreita de que a maré favoreça e haja esperança de peixe” (José Saramago).

 

Este é um local ideal, que conjuga o natural cruzamento entre a floresta do Pinhal de Leiria e o mar da Praia da Vieira, com três atrações de maior interesse turístico: as extensas praias brancas com um grande areal, que chamam o verão; a sua pesca artesanal – chamada “arte xávega” – que nos dá o garante do peixe fresco; e o bonito Hotel Cristal Vieira Praia & Spa, com quartos dispostos em casas de madeira coloridas, muito ao jeito da Costa Nova, em Aveiro, com jardim no meio e acesso livre ao Parque Aquático Mariparque.

A exemplo do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, uma forma solidária de se fazer férias fora, mas cá dentro, neste período de verão, é explorar durante uns dias uma das zonas afetadas pelos incêndios do passado verão, de má memória. Os incêndios do outono de 2017 consumiram 17.250 hectares em Alcobaça, Leiria e Marinha Grande. O parque de campismo da Praia da Vieira, por exemplo, foi levado pelas chamas.

Assim, é importante revisitar os locais, mas para usufruir do descanso e, com a presença, reforçar-lhe a vida.

Um desses locais lindíssimos, no centro litoral de Portugal, e que aqui recomendamos, é Vieira de Leiria, vila e freguesia da Marinha Grande (fica 14 quilómetros para norte), na margem esquerda do rio Lis – a praia da Vieira fica a sul da foz deste rio, de mais de 39 quilómetros de comprimento. Toda a vila e o seu centro distam, apenas, uns quilómetros da costa.

 

Pesca com história

Vieira de Leiria é conhecida pela sua zona industrial: outrora produziam-se ali cerâmica, vidro e limas. As fábricas e os armazéns que podemos ver na região estão, presentemente, relacionados com o plástico, o aço inoxidável e maquinagens. Mas entre as ocupações maiores das suas gentes estavam, no passado – pelo século XVIII –, o corte e serração para o fabrico do pez, com a ligação à mata. Contudo, a atividade principal, que ocupava as gentes e cujas origens remontam à Praia da Vieira, é a piscatória, que gerava maior fixação populacional através da tradicional “arte xávega”. Isto é, a pesca artesanal secular pelas redes de arrasto, que assegurava o sustento de muitas famílias (ainda assegura a de poucas dezenas), e o impacto comercial do próprio pescado – não só na lota local que vende o peixe mal chega a terra (aos habitantes e visitantes), como também nos restaurantes locais (e noutros vizinhos) com o peixe fresco capturado na hora e que atrai mais turistas.

Ora, a História universal escreve-se também nesse local: a população sofreu com a Invasão Francesa, em 1810, e teve de esconder-se, com os seus bens, no Pinhal do Rei. Muitas das casas da região foram então destruídas. Melhores tempos e dias surgiram no século XX, ganhando Vieira de Leiria com o fluxo de migrações internas no país dos “avieiros”. Embora a vida dos pescadores ficasse afetada pelos duros invernos, as comunidades de avieiros foram-se alojando nas vilas ribeirinhas. Durante muitos anos, estes dividiam a sua vida entre a primavera-verão em Vieira de Leiria, com a “arte xávega” da sardinha, e o outono-inverno no Tejo, com a “arte varina” do sável. Ainda hoje há quem divida desta forma a sua vida, alugando a sua casa de Vieira nos meses em que está ausente.

A “arte xávega” mantém-se, mas de modo paulatino, sem o maior êxito de outrora. Daniel Nunes, que faz pesca em Vieira de Leiria, conta como se desenvolve o processo: “Desde que entramos [no mar] até vir são cerca de duas horas e meia, sensivelmente”, conta, explicando que mantém ocupada quase uma vintena de pessoas. “São sempre precisos entre 15 a 18 homens, desde a ida ao mar até à recolha”, diz. A rede tem “400 ou 500 metros em cada manga, o que perfaz cerca de 900 metros, mais a boca do saco, o que dá uns 1.000 metros. Levamos no barco um cabo, lançamos a rede paralela aqui à praia e trazemos outro cabo. Depois os tratores fazem esse trabalho de puxar a rede”, explica.

E a rede tem vindo com peixe ou vazia? “Já tivemos lances que deram bastante trabalho, agora há outros que nem dá para o gasóleo”, diz.

 

Um futuro diferente

Facto é que as dificuldades permanecem e outras surgem, como um gosto menor das novas gerações das famílias de pescadores por este tipo de pesca artesanal. As famílias já não estão dispostas a sofrer e a correr os mesmos riscos elevados que são corridos com a faina no mar alto, ou mesmo a chegar a terra. “Já tivemos momentos de pânico: o barco já afundou duas vezes, na zona da pancada do mar que chamamos de “cabeça”. É a área de rebentação, que é a mais forte, a 150 ou 200 metros do areal”, conta Daniel Nunes, pescador com 12 anos de vida no mar. “Uma das vezes tivemos de vir a nado e, da outra vez, houve uma embarcação que nos foi buscar”, conta. E não pensa em desistir? “Não, porque quando era pequenito já aqui andava a ajudar a puxar as redes, que eram retiradas a tirante e antes ainda eram puxadas por vacas. Por isso, fascinou-me logo de criança quando vinha para aqui”.

Hoje, é diferente: há uma nova gama de ofertas profissionais alargadas noutras áreas, outros caminhos que não existiam no tempo de ouro da “arte xávega”.

A Praia de Vieira não perdeu, contudo, o melhor que tem e isso é que importa preservar, visitando o local, observando a chegada dos pescadores com o peixe e todo o processo artesanal, consumindo um peixe saboroso acabadinho de pescar e contribuindo para o crescimento económico da vila e da região. “Isto é o ex-líbris aqui da praia e, se calhar, 70% do peixe que as pessoas adquirem é peixe fresco, acabado de pescar”, diz Daniel Nunes.

Autor: André Rubim Rangel

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