Donald Trump fez bem em adiar o anúncio das tarifas para o dia 2 de abril porque se o tivesse feito no dia anterior, arriscava-se a que muitos julgassem que seria apenas uma partida do “April’s Fool”. Brincadeiras à parte, porque o assunto é sério, é necessário fazer um ponto prévio.

É verdade que os EUA têm sido tratados pelos seus parceiros comerciais de forma assimétrica. Ou seja, os exportadores dos EUA têm, genericamente, mais dificuldades em entrar nos mercados externos do que acontece a quem quer vender aos estado-unidenses. É importante reconhecer que essa situação criou espaço para que Trump implementasse uma agenda protecionista.

No imediato, o dólar caiu para mínimos não vistos desde outubro do ano passado, portanto antes das eleições. Isto significa que os exportadores para os EUA não só vão enfrentar as tarifas como um dólar desvalorizado. As bolsas recuaram, mas o maior impacto inicial até foi nas praças dos EUA o que se explica porque quem vai pagar no imediato as tarifas e o dólar mais fraco será o consumidor local, sob a forma de preços mais altos, menos disponibilidade de produtos e, a médio prazo, menor qualidade dos mesmos. Além disso, se um dos objetivos principais das tarifas for financiar a redução de impostos, trata-se de uma medida muito regressiva e potencialmente recessiva.

As tarifas já eram esperadas, mas os mercados reagiram de forma negativa por considerarem que as taxas apresentadas são muito discricionárias – por exemplo, há pouco racional para aplicar 20% à UE e 10% ao Reino Unido. Há o risco de escalada do conflito tarifário e o fortalecimento do protecionismo a nível global implica menor quantidade de bens e serviços transacionados e consumidos – a introdução de um imposto leva sempre a uma diminuição da quantidade consumida. Além disso, as tarifas apresentadas são sobretudo impactantes na relação com a China.

Para Portugal, houve uma boa notícia – o setor farmacêutico é o que mais exporta para os EUA e ficou de fora destas tarifas, mas os restantes serão afetados. O maior efeito poderá vir da retaliação da União Europeia, sobretudo se incidir nos serviços, nomeadamente tecnologias de informação. Há também o risco de uma escalada poder prejudicar o turismo se o dólar desvalorizar muito mais ou se houver algum tipo de restrição ou oneração à circulação de pessoas

Em resumo, como dizia há cerca de um mês o Chief Strategist da JP Morgan: “O problema das tarifas, para ser sucinto, é que aumentam os preços, abrandam o crescimento económico, reduzem os lucros, aumentam o desemprego, agravam a desigualdade, diminuem a produtividade e aumentam as tensões globais. Fora isso, são ótimas”.