O discurso em defesa dos imigrantes assenta, muitas vezes, numa perspectiva utilitarista do sujeito, relacionada com o impacto do seu desempenho na economia, pelo que o imigrante passa a ser perspectivado como uma força de trabalho que se sujeita, necessariamente, a um tipo de trabalho que o nacional não está disponível para realizar. Deste modo, os imigrantes são reduzidos a uma condição ou categoria de sujeito do ou para o trabalho, por excelência.
Este discurso funda-se, efectivamente, uma análise económica realista e objectiva, porque determinados sectores da economia portuguesa estão dependentes, em grande medida, da mão de obra imigrante. Por isso, os migrantes acabam por assegurar a funcionalidade económica e garantir a qualidade de vida da sociedade portuguesa. No entanto, legitimar a imigração através de uma perspectiva utilitarista, de natureza económica, não deixa de ser um exercício reducionista, que acaba por transformar o imigrante num sujeito validamente aceite, quando é uma força de trabalho somente.
Com efeito, esta premissa gera um conjunto de consequências de ordem prática para a vida do imigrante. Quando um imigrante não tem emprego e precisa, por exemplo, de renovar o seu estatuto de residente dificilmente terá uma resposta positiva por parte das autoridades, porquanto deixou de ser uma força de trabalho e já não serve a sociedade. Ou seja, este sujeito deixou de estar legitimado para permanecer na sociedade de acolhimento.
Com base na premissa utilitarista, umimigrante sem emprego nãoserve e não deve ficar na sociedade de acolhimento e esta é a perspectiva normalmente acolhida nos instrumentos legais criados pelos governos nacionais. Esta perspectiva utilitarista não se restringe aos imigrantes per se, estendendo-se aos seus filhos e netos, que passam a ser classificados como a segunda ou a terceira geração de imigrantes. Com efeito, estabelece-se uma legitimidade política e económica, que acaba por reduzir os descendentes dos imigrantes a sujeitos de menos direitos, que devem, por conseguinte, estar ao dispor da racionalidade económica de exploração, com escassa possibilidade de ascensão social.
Estes jovens, que são identificados como imigrantes de segunda e de terceira geração, muitas vezes, nunca visitaram a terra dos seus pais e avós, mas, são, ainda assim, considerados de imigrantes na sua própria terra.



