Assisto, sempre, com perplexidade, aos auto-elogios, produzidos por figuras públicas, quando pressentem que vão ser substituídos nas respectivas funções, em particular em cargos de confiança política.
Desdobram-se em conferências, entrevistas, sempre com o mesmo padrão do auto-elogio.
Estes auto-elogios na despedida são confrangedores, não dignificam o exercício de cargos públicos e são absolutamente desnecessários e contraproducentes.
Se o indivíduo em questão foi competente, receberá, certamente, um número considerável de elogios externos, se foi incompetente, o exercício de auto-elogio não ajuda em nada.
E vai ao arrepio dos princípios fundamentais que enquadram o serviço público: ética, competência, honestidade e, sobretudo, discrição.
Quando estas situações ocorrem nas áreas de economia e finanças, áreas muito sensíveis, em termos de confiança dos mercados e de reputação profissional dos vários agentes, os danos potenciais são elevados, com o sucessor a ter que actuar, no curto prazo, em situação de emergência.
Os processos de sucessão não são só complexos nas empresas familiares, a sucessão de dirigentes públicos de topo deve ser tratada com grandes preocupações éticas e de manutenção das capacidades operacionais das respectivas organizações.
E quando este processo ocorre com rigor, discrição e dignidade, os elogios e agradecimentos em relação a quem passou o testemunho, ao seu sucessor, ocorrem com naturalidade, vindo, sobretudo, dos seus pares.
Se aceitarmos estes princípios, de análise e avaliação comportamental, a razão que resta para os auto-elogios de despedida, têm como base, a convicção do auto-elogiado de que nunca receberá elogios externos.
Estes temas deviam ser tratados no âmbito dos modelos de governance das instituições públicas, com um código de governance, de cumprimento obrigatório, pelos quadros dirigentes de topo destas organizações, que infelizmente, ainda não existe.
É urgente alterar esta situação, criando condições de confiança nas instituições fundamentais à nossa democracia, garantindo competências técnicas indiscutíveis e comportamentos éticos e de independência aos seus quadros dirigentes.
Nos tempos turbulentos que vivemos, em termos de evolução política, económica e social, os aspectos comportamentais são críticos para a reputação das organizações.



