À medida que caminhamos para 2035, as comunicações móveis deixaram de ser apenas tecnologia. Tornaram-se uma infraestrutura invisível, mas vital, que sustenta economias, governa cidades e redefine relações humanas. O que há meio século parecia ficção científica — um telemóvel como ferramenta quotidiana, indispensável — hoje é tão banal quanto a eletricidade ou a água potável.

Mas não nos iludamos: o futuro desta conectividade não está garantido. Depende de escolhas políticas, do rumo da inovação, de pressões económicas globais e de dilemas éticos que começam a pesar. Portugal, no contexto europeu, não escapa: a forma como nos posicionarmos agora ditará se seremos apenas consumidores de tecnologia ou atores relevantes na sua construção.

Há cenários possíveis — e divergentes. Num horizonte otimista, redes 5G autónomas, computação de periferia e serviços em nuvem permitem a Portugal apostar numa saúde preditiva, numa educação personalizada e em transportes sustentáveis. Tudo isto com fundos europeus bem aplicados e com regulamentação que inspira confiança pública.

Mas o oposto também está ao virar da esquina: falhas de segurança digital, vigilância abusiva e desinformação podem corroer a confiança. Ciberataques a sistemas críticos — como o SNS — transformariam a tecnologia de promessa em ameaça. Nesse cenário, a população procuraria alternativas descentralizadas e o Estado reagiria com leis restritivas, minando ainda mais a confiança.

Entre estes extremos, outro risco: a captura do mercado por um punhado de gigantes tecnológicos. A consequência seria desigualdade digital: cidades com acesso rápido e de qualidade versus zonas rurais esquecidas. Portugal seria um reflexo de uma Europa em que inovação e conectividade se tornariam símbolos de estatuto social.

Mas há ainda uma via diferente: a de uma coligação internacional pela soberania digital. Portugal, com a lusofonia, poderia apostar em inteligência artificial de código aberto, satélites partilhados e redes comunitárias. Aqui, a conectividade deixa de ser luxo ou privilégio, passando a ser reconhecida como direito humano, alicerce de inclusão e justiça digital.

Estes quatro cenários — crescimento inteligente, colapso digital, redes restritas e transformação cooperativa — já se insinuam no presente. A escolha de qual deles prevalecerá não depende apenas da tecnologia, mas de decisões políticas e sociais que terão de ser tomadas agora.

Proteger direitos digitais, garantir acesso inclusivo, investir em infraestruturas abertas e éticas, dar voz às comunidades mais vulneráveis e reforçar a literacia digital são tarefas urgentes. O futuro da conectividade será, inevitavelmente, coletivo. A questão é simples: vamos liderar essa construção ou deixar que outros a façam por nós?