A vitória de Zohran Mamdani irá, muito provavelmente, entrar nos manuais de História como uma das campanhas políticas mais arrojadas e bem-sucedidas de sempre.
Perante a sua vitória, fica claro que foi um candidato sem medos. Sem medo de exprimir um otimismo inabalável, sem medo de assumir a sua identidade como imigrante e muçulmano, que o leva a proclamar na noite do seu discurso, na língua árabe, ana minkum wa alaikum (Sou de vós e para vós), sem medo de defender o socialismo na melhor tradição de Eugene Debs, figura socialista e sindicalista que citou no seu discurso.
Mamdani não é um americano de origem e usou isso a seu favor, ao compreender que a identidade dos EUA, e em particular de uma cidade como Nova Iorque, é construída sobre os ombros de inúmeras comunidades imigrantes. A sua comunicação brilhante nas redes sociais raramente mostrava comícios com multidões, mostrava, sim, Zohran nas ruas de Nova Iorque a falar com cidadãos anónimos de várias origens (por vezes não tão anónimos), que compõem o mosaico de uma cidade que nunca dorme.
Os taxistas que trabalham sete dias por semana já o conheciam, porque ele estivera ao seu lado numa greve em 2021. Não foi uma política performativa em tempo de campanha. Assumiu um compromisso genuíno em melhorar as condições de vida das pessoas, numa cidade que tinha virado costas à sua população e vergado perante o poder financeiro.
Com a campanha de Mamdani, observámos um regresso às origens do socialismo. É uma lição a todos os partidos que se guiam pelos ideais da esquerda progressista e que são constantemente chamados de “radicais” pela direita. Mais do que nunca, são necessárias soluções eficazes para grandes problemas. Sem isso, vemos os cidadãos a desligarem-se da política, ou a sentirem-se tentados pelas mensagens populistas da extrema-direita, que crescem com base no ressentimento e no voto de protesto.
Mamdani mostra-nos que há um caminho de sucesso que pode ser feito à esquerda. Convenceu as pessoas a votarem, mostrando que ele é um deles e compreende as suas dificuldades diárias. Escutou e falou para os movimentos de base, de forma a obter o apoio das comunidades locais.
Mamdani derrubou o cinismo que tanto define a política do nosso tempo, como referiu no seu discurso. Todos já tínhamos deixado de acreditar que nem sempre o poder ou o dinheiro vencem. Agora começa a parte mais interessante. Conseguirá o novo mayor transformar Nova Iorque numa cidade que acolhe todas as pessoas?



