Dois artistas, duas exposições individuais, mas que se tocam. Como? Fidel Évora cria composições entre o real e o ficcional, questionando a interferência do digital na nossa forma de estar, de nos relacionarmos, de ver o mundo. Jules Be Kuti entra delicadamente no campo da masculinidade, em particular do homem negro, ainda hoje carregada de estigmas. E tenta desconstruí-los. Que chão comum podemos nós ver aqui? A vontade de tocar a pele, i.e., a tangibilidade de estar com o Outro – sem virtualidade pelo meio, num caso; sem a cegueira dos estereótipos, do outro.
Cartografar a memória
Entramos no novo espaço da Movart e somos recebidos pelo poderoso preto e branco das imagens criadas por Fidel Évora para a exposição Coisas do Coração e Não Coisas, que resulta de “uma investigação visual e conceptual sobre a transição da imagem analógica para a digital”. O artista desconstrói e reconfigura imagens de arquivos históricos, como os que encontrou na Torre do Tombo, e também a partir de imagens disponíveis online. São composições que oscilam entre o real e o ficcional, e que são trabalhadas através de um processo manual e fotográfico baseado na serigrafia, a sua técnica de eleição.
O objetivo, como refere o curador João Silvério, é assumir “uma posição crítica sobre a comunicação e cumplicidade que qualquer dispositivo digital auto-portante condiciona e eventualmente destrói, mesmo à distância (mínima) de um scroll ou na voragem exponencial da sucessão algorítmica, que interrompe continuadamente qualquer possibilidade de uma narrativa parcelar ou sequencial”.
Palavra ao artista. “A ideia desta exposição desenvolve-se a partir de uma só peça, um vídeo que parte da ideia do pêndulo. Um objeto que sempre serviu como uma analogia para as nossas vidas”, diz ao Jornal Económico. Mas Évora não escolheu um pêndulo qualquer. Escolheu o duplo pêndulo, “que tem dois eixos de rotação, o que o torna caótico.” O que o artista pretende aqui é fazer analogia ainda mais específica: a necessidade “que temos em encontrar um ‘balanço’, um equilíbrio, desde que a nossa vida passou a ser ‘algoritmizada’”, realça.
E elabora. “A realidade de cada pessoa é totalmente diferente porque [o contexto] já não é controlado pelas nossas emoções, pelo que nós tocamos, pelo que nós sentimos. É controlado pelo mundo virtual.” E questiona. “O que é a nossa biografia?”. O que somos nós? Quem somos? Tudo se dilui no mundo virtual e numa lógica de consumo. “Se calhar, a maior parte das pessoas consegue viver quase a vida toda nas redes sociais. Está tudo tão presente que já não existe a saudade. Porque a saudade tem de ser combatida com a necessidade de o mercado de nos oferecer coisas. Ou seja, já não temos saudade de coisas, já não temos saudade de amizades, porque está tudo sempre presente.”
Évora é um “experimentador”. Desenho, pintura, graffiti, design gráfico. Tudo isto ele experimentou. Nesta mostra, o vídeo é também convocado, numa sucessão de short movies projetados aleatoriamente na parede da galeria, que funciona aqui como um imenso ecrã, que ganha um elemento perturbador adicional com a composição musical da artista Mrika Sefa e as sonoridades criadas pelo músico Biru.
O artista pesquisa na Internet imagens que converte em pixels, “que também são mapas de informação”, explica, que manipula para, depois, “criar novas coisas, novos padrões, novas histórias, novas narrativas”. Porque narrativa e informação são coisas diferentes. “A informação é uma não-coisa. Nós não podemos ter uma narrativa só com informação. Por exemplo, podemos ter toda a informação do mundo, mas não temos uma narrativa para nos guiar”. E a vida online, que parece ser o habitat que o ser humano busca incessantemente, leva-nos, diz, “a perder o sentimento do coração.” Nesta cartografia da memória, sentir e desacelerar é, sem dúvida, resistir à velocidade algorítmica do tempo em que vivemos.
Poder e sensibilidade
No primeiro piso, mais pequeno e intimista, visitamos Fragmento de uma Masculinidade Invisível, do artista francês Jules Be Kuti, a primeira individual em território portugês. Escolheu trazer a série Tons de Preto: Explorações da Masculinidade, naquela que é uma incursão muito pessoal e visualmente poderosa pela complexidade da identidade masculina negra. Be Kuti explica que se inspirou na sua educação no seio de uma grande família, onde as figuras masculinas moldaram a sua visão de mundo. Pais, tios, irmãos, primos, uma constelação de figuras e referências que o artista explora, oscilando entre a força e a vulnerabilidade, a resiliência e a ternura.
Não lhe são estranhos temas como a discriminação e a marginalização. Mas aqui, a tónica é a representação da diversidade, celebrando “a beleza que caracteriza a comunidade negra. Através da cor, da expressão e do rosto humano, procuro criar um espaço de reflexão onde o público se possa imergir nas emoções e histórias que as minhas obras transmitem.” Acima de tudo, o artista quer desafiar, com as suas obras, estigmas e estereótipos, e abrir um espaço para o diálogo, convidando o público a refletir sobre a diversidade das experiências masculinas negras, amiúde negligenciadas pelas narrativas dominantes.
Estamos perante uma outra cartografia da memória, centrada na investigação da identidade e da representação cultural no mundo contemporâneo, no qual importa diluir as fronteiras mentais, leia-se preconceitos e intolerância para com o Outro. Se à arte se reconhece o poder de transformar, que seja através dela que nos reencontramos com o Outro. De corpo e alma. E com coração.
Duas exposições para descobrir, até 22 de novembro, no novo espaço da Movart, na Rua Santo António à Estrela, 74.
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