As ameaças de Donald Trump à BBC, envolvidas na vontade expressa de exigir uma indemnização milionária à estação pública britânica, é a internacionalização do que ele tem feito dentro de casa com grande sucesso: processa órgãos de comunicação social, universidades e grandes escritórios de advogados e só desiste quando os dobra e os torna para todo o sempre obedientes e servis. O objetivo salta à vista: acabar com o pensamento crítico e demolir, passo a passo, os alicerces da democracia.
É evidente que a direita radical que namora com a extrema-direita tem as mesmas pulsões controladoras da esquerda radical, o problema é que esta direita está no poder nos Estados Unidos, em Itália e em vários outros países relevantes para o nosso modo de vida. Em Portugal, o Chega é o segundo partido mais votado e ocupa a agenda mediática – com a cumplicidade das televisões – como uma viscosa mancha de óleo que todos conspurca. Ventura diz e faz coisas que nos envergonham como país, como o cartaz contra os imigrantes do Bangladesh ou o que diz “os portugueses primeiro”; mas apesar da agressão permanente e do racismo latente, goza de um bizarro estatuto de inimputável político.
Os portugueses parecem não se incomodar com o assalto em curso. Divertem-se com a alarvidade que tomou conta da Assembleia da República. Desvalorizam as consequências económicas deste estado de sítio que começamos a viver e que, seguindo este rumo, irá pôr em risco a viabilidade do país. A nossa participação na União Europeia como membro de pleno direito começará – justamente e a prazo, caso o Chega um dia seja governo – a sofrer consequências. Até esse dia, outros efeitos se farão sentir: um país que precisa das receitas do turismo pode hostilizar os estrangeiros desta forma? Um país que precisa de imigrantes para fazer andar a economia pode patrocinar legislação que não só os agride na mensagem subliminar – um erro grave deste Governo –, como vai mesmo reduzir a quantidade de mão de obra disponível?
Não são apenas os almoços, jantares e transportes do uber, há muitas outras áreas que ficam comprometidas. A saúde é uma delas, porque sem imigrantes haverá menos auxiliares para tratar dos mais velhos ou de quem precisa de cuidados continuados. Este é o momento para pensarmos a sério neste suicídio lento e coletivo em que estamos a embarcar. Antes que o medo paralise o país, o Chega tem de ser exposto e combatido pela ameaça existencial que representa.



