Não é fácil decidir em Portugal, muito menos quando estão em causa bens públicos. Enrodilhamo-nos em camadas de contributos para escudar uma decisão que nem sempre chega, envolvemos o maior número possível de agentes no processo, com e sem sentido, que atrasam qualquer projeto num percurso que por querer ser tão seguro e preventivo retira o espaço à ação.
Quando falamos com gestores e empresários, uma crítica segura é a que é sempre feita ao tempo dos processos e da decisão. Como se fossemos todos o jumento de Jean Buridan, que, por não conseguir decidir, acabaria por morrer de fome, apesar de ter alimento disponível. Parece uma alegoria ao novo aeroporto de Lisboa.
O problema é mais grave porque é cultural: não discernimos o que é decisão política do que é um parecer técnico, o que compete à escolha de quem representa a sociedade no seu conjunto e o que respeita ao contributo que enquadra. Porque, no fim da linha, não nos iludamos, a decisão é sempre política, como a indecisão.
A multiplicação do número de entidades que intervêm nos processos, de reguladores a controladores, entidades públicas diversas com interpretações concorrentes da ideia do decisor político, os vários níveis da administração, nacional e local, acrescentam uma camada de imprevisibilidade à demora. Quando chegamos à situação extrema da intervenção do Ministério Público, por considerar que também tem opinião e o poder de intervenção, que exerce, o risco torna-se imenso.
Não existe responsabilização pelas consequências de qualquer uma destas decisões. Só os promotores e o decisor político são condenados. E a comunidade, que acaba por soçobrar, mesmo tendo alimento.



