No ano passado foi bem mais fácil prever o curso da política monetária. Na verdade, acertamos em cheio nas previsões, antevendo que o Banco Central Europeu iria cortar taxas de juro até meados de 2025, até aos 2%, nível perto do qual também iriam estacionar as Euribor. A previsão de que poderíamos ter taxas Euribor abaixo de 2% também foi certeira – sucedeu nas maturidades até três meses. Foi uma tarefa mais simples do que a atual porque, entre outros motivos, havia dinâmicas claras quer em termos de inflação quer do discurso e da atuação do BCE.
O que torna as previsões para 2026 mais difíceis é que estamos perante uma situação estacionária. A inflação na zona euro está controlada e a tender para o objetivo do BCE de valores em torno de 2%, as taxas de juro estão num patamar que nem é restritivo nem particularmente expansionista – com os critérios de concessão de crédito a serem muitas vezes mais relevantes do que o nível das taxas de juro – e a economia vai-se mantendo resiliente sem mostrar particular fulgor. Deste modo, a previsão mais sensata é mesmo esta: não se esperam alterações significativas na política monetária do BCE em 2026, mantendo-se os juros de referência inalterados. É o próprio banco central, através da sua presidente, que admite que se encontra numa posição confortável. E, olhando para as taxas forward, não há qualquer expectativa de mexida nas taxas de juro em 2026. Ou seja, o mercado também acha que vai ficar tudo na mesma.
O desafio que se coloca aos agentes económicos sensíveis à evolução das taxas de juro é reconhecer alterações de contexto que possam surgir no próximo ano. Antever essas mudanças implica ter uma opinião clara acerca do que será a economia europeia (e mundial) em 2026, o que não é fácil. A isto acresce que o liberation day de abril passado e o encerramento prolongado do Governo dos Estados Unidos introduziram anomalias nos dados económicos, dificultando a avaliação do estado da atividade.
Tomando como bons alguns indícios de que a economia mundial poderá surpreender pela positiva, que as tarifas e o protecionismo poderão gerar efeitos de segunda ordem e que os primeiros efeitos da implementação da inteligência artificial até podem ser ligeiramente inflacionistas, parece ser mais provável que a próxima alteração das taxas de referência possa ser feita em alta. A acontecer, não parece que possa ocorrer antes da segunda metade do ano. Mas, claro, as coisas podem mudar muito depressa.