As televisões foram as primeiras a apanhar o ar do tempo. Adaptaram a programação desenhada para a família a um tom que hoje, errada e estupidamente, chamamos de popular – apesar de ser apenas o reino da vulgaridade, não o espaço comum das pessoas. Em Portugal, o Big Brother do Zé Maria foi o pontapé de saída para o domínio da boçalidade. Já passaram 25 anos, parece que foi ontem: a gangrena alastrou. A partir dessa galáxia muito distante, foi ribanceira abaixo, sempre a acelerar. Nos Estados Unidos, os reality shows deram fama a um empresário a caminho da falência, o nova-iorquino então conhecido como “o Donald”, hoje recauchutado em “Mr. Trump” ou “Mr. President”. As mesas de madeira lascada do escritório em Manhattan receberam o brilho lascivo das luzes e o vendedor impôs o jeito natural para a aldrabo-fanfarronice. As frases curtas e afiadas, agressivas, misóginas e racistas, deram corpo à caricatura. Nem os programas o Donald preparava: não sabia o que acontecera durante a semana e despedia o concorrente que mais o irritava – mesmo que tivesse sido o melhor. Imagens editadas, a história era reescrita e oferecida ao espetador, exatamente como hoje acontece na Casa Branca nos assuntos internos ou globais.

As negociações para a paz na Ucrânia – recheadas de revisionismo primário – são o episódio seguinte desta miserável comédia. A América de hoje exporta ficções tóxicas que revelam fraqueza, decadência e, ainda assim, moldam o mundo. A explicação é evidente: o nacionalismo é o destino dos povos vencidos. Órban, Le Pen, Meloni (sim, ela), Farage e o Ventura replicam o caminho, ladeira abaixo, sempre a acelerar, e Putin aplaude. Televisões, jornais, rádios e redes sociais ajoelham – ajoelhamos – à mensagem. A polémica é o alfa e o ómega desta pseudoinformação onde quase ninguém resiste ao apelo comercial do lixo, subproduto e subficção nutrido apenas de vencedores, vencidos e culpados, limpo, sem zonas cinzentas, sem pensamento e dúvida – a informação ancorada até à náusea nos casos do dia que desaguam sempre, sem falhas e remorso, na condenação instantânea no tribunal da opinião pública – é o triunfo da castração mediático-digital. As vítimas são diárias, o mal está feito e “estás despedido”, diria o Donald. A esquerda, toda ela, perdida nos nevoeiros longínquos dos famélicos e dos amanhãs que cantam, não entendeu nada. Vive cristalizada, fechada ao mundo que a rodeia, agarrada a ideias que naufragaram há muito, aguardando pela sua vez (acha ela) para tomar outra vez o poder – não percebeu nada, nem quer perceber. Usa as mesmas armas do adversário, embora lubrificadas pela aura idiota de uma suposta superioridade moral. Ladeira abaixo, sempre a acelerar.

O ano que está a acabar até correu razoavelmente a Portugal: a economia cresce, o emprego mantém-se robusto, as empresas incorporaram a necessidade existencial de exportar. Uma boa notícia, mas o contexto é o diabo. Num mundo fechado sobre si próprio, refém do superficial, a desglobalização veio para ficar e os mercados encolhem. No futuro, negociaremos com a China ou com os EUA? A inteligência artificial, que ameaça lançar o caos nas bolsas, contagiando a economia real, traz consigo outra ameaça estrutural. As profissões mais qualificadas estão em risco de vida. A classe média, fundada na confiança iluminista do conhecimento e do progresso, está na linha de fuzilamento. Milhares de empregos estão em risco de extinção ao virar da esquina. É o triunfo das massas virado do avesso: a utopia terminou em distopia, virou proletarização global sob os desmandos de um punhado de inimputáveis de riqueza cósmica. Tecno-feudalismo, chamou-lhe Varoufakis – quem melhor do que ele, comunista chique, para batizar este momento da história em que tudo parecer arder. Arderá?