Quando o calendário marca 31 de dezembro, milhares de portugueses não estão apenas a preparar a passagem de ano. Estão a amarrar os ténis, a aquecer os músculos e a preparar-se para uma tradição que atravessa gerações: as corridas de São Silvestre. O que começou como uma prova isolada transformou-se num fenómeno nacional que combina desporto, comunidade e dinamismo económico.
A origem desta tradição remonta a 1925, em São Paulo, quando a Gazeta Esportiva organizou a primeira Corrida Internacional de São Silvestre. A prova brasileira ganhou dimensão global e inspirou dezenas de países a criar as suas próprias versões. Em Portugal, as corridas de São Silvestre multiplicaram-se e tornaram-se parte integrante da cultura desportiva nacional, mantendo o espírito original: celebrar o fim do ano através do desporto e da convivência.
Hoje, praticamente todas as grandes cidades portuguesas organizam a sua São Silvestre. Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Funchal, Aveiro, Setúbal, Leiria e Viseu enchem as ruas de corredores no mês de dezembro – em particular no dia 31 – e, em alguns casos na primeira quinzena de Janeiro.
Cada prova tem a sua identidade: algumas privilegiam o caráter competitivo, outras focam-se na vertente popular e inclusiva. Os percursos variam geralmente entre os 5 e os 10 quilómetros, tornando-as acessíveis tanto a atletas federados como a amadores.
Do ponto de vista desportivo, estas provas desempenham um papel fundamental. Para muitos atletas de fundo e meio-fundo, a São Silvestre representa o encerramento oficial da época. É frequente vermos medalhados nacionais e internacionais a participar, elevando o nível competitivo. Simultaneamente, as corridas populares funcionam como porta de entrada para o atletismo recreativo, democratizando o acesso ao desporto e contribuindo para combater o sedentarismo.
Mas a relevância das São Silvestre ultrapassa as marcas cronométricas. O impacto económico destas provas é considerável. As inscrições geram receitas para organizadores e municípios, aos quais se somam patrocínios de empresas que veem nestas corridas uma oportunidade de visibilidade junto de um público ativo e diversificado. Marcas como a Nike, Adidas, New Balance e Asics associam-se regularmente a estas provas, reforçando a sua ligação ao atletismo português.
Empresas de grande distribuição como o Lidl e El Corte Inglés, operadoras de telecomunicações como a NOS e a MEO, instituições financeiras como a Caixa Geral de Depósitos e o Millennium BCP, seguradoras como a Fidelidade e Tranquilidade, marcas de alimentação desportiva e empresas de utilities encontram também nestas corridas uma plataforma de comunicação eficaz junto de um público diversificado e com elevado poder de compra.
O efeito multiplicador na economia local é ainda mais interessante. Muitos participantes deslocam-se de outras regiões, gerando procura em hotéis, restaurantes e comércio local. Familiares e amigos acompanham os corredores, aumentando o número de visitantes. Em cidades como o Funchal, onde a São Silvestre se tornou num evento turístico de referência, o impacto no setor hoteleiro de fim de ano é mensurável.
A cadeia de valor estende-se à indústria do desporto. Lojas especializadas como a Decathlon ou a Sport Zone registam picos de vendas nas semanas anteriores às provas. Ténis, roupa técnica, relógios desportivos e acessórios de corrida são procurados tanto por participantes experientes como por estreantes. Empresas de cronometragem, produção de eventos, catering desportivo e fisioterapia encontram também nestas corridas oportunidades de negócio significativas.
As autarquias perceberam esta equação. Investem em organização, segurança e promoção porque sabem que o retorno justifica a aposta. Alguns municípios conseguiram transformar as suas São Silvestre em marcas fortes, com milhares de inscritos ano após ano.
Quando milhares de portugueses cruzam linhas de meta por todo o país no último dia do ano, estamos perante muito mais do que simples corridas. São Silvestre é tradição, é saúde, é comunidade. E é também economia em movimento. Num país que procura valorizar os seus ativos e diversificar as fontes de dinamismo económico local, estas provas merecem reconhecimento pelo papel multifacetado que desempenham.


