Durante anos, falou-se de uma nova Guerra Fria como metáfora. Um conceito cómodo para analistas que precisavam de explicar tensões crescentes sem assumir que o mundo tinha, de facto, entrado numa nova fase de confronto. Os acontecimentos dos últimos dias na Venezuela tornam essa prudência obsoleta. A guerra já começou. Apenas não começou onde muitos esperavam.
A captura de Nicolás Maduro pelas forças americanas não é um episódio isolado, nem uma operação cirúrgica destinada a corrigir um desvio autoritário. É um acto de força deliberado, uma violação aberta do princípio da soberania estatal e um sinal inequívoco de que Washington abandonou qualquer pudor jurídico na defesa dos seus interesses estratégicos. Não estamos perante uma operação moral. Estamos perante uma operação de poder.
O erro fundamental é olhar para a Venezuela apenas como Venezuela. O que está em causa não é Caracas, nem sequer o chavismo enquanto regime. O que está em causa é o controlo de um espaço económico, energético e geopolítico central na disputa entre os Estados Unidos e a China. A Venezuela é o primeiro movimento visível de uma estratégia muito mais ampla.
Donald Trump não regressou ao poder com a intenção de gerir o declínio americano. Regressou com a convicção de que esse declínio pode ser travado à força. Não pela via da inovação, onde a China já rivaliza ou supera os Estados Unidos em múltiplos sectores. Não pela via do comércio livre, que deixou de favorecer Washington. Mas pela via do controlo. Controlo de recursos. Controlo de rotas. Controlo de Estados inteiros.
A Venezuela encaixa perfeitamente nesta lógica. Detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. É um nó energético crítico. E, sobretudo, tornou-se nos últimos anos um parceiro estratégico de Pequim e de Moscovo, não por afinidade ideológica, mas por necessidade de sobrevivência. Para Washington, isso tornou o regime de Maduro intolerável. Não por ser ditatorial, mas por ser funcional aos interesses chineses.
A captura de Maduro envia três mensagens claras. À América Latina, de que a margem de autonomia estratégica terminou. À China, de que os Estados Unidos estão dispostos a atacar os seus interesses indirectos sem hesitação. E ao resto do mundo, de que o direito internacional passou a ser opcional.
Esta é a nova doutrina americana. Uma doutrina de guerra económica total, onde o campo de batalha não são trincheiras, mas portos, minas, contratos de concessão, sistemas financeiros e governos frágeis. Trump percebeu algo essencial. Uma guerra directa com a China seria catastrófica. Militarmente imprevisível. Economicamente suicida. Politicamente incontrolável. Por isso, escolheu outro caminho.
Fragilizar a China onde ela é vulnerável. Nas cadeias de abastecimento. No acesso a matérias-primas. Na estabilidade das regiões que alimentam o seu crescimento. A América do Sul é central neste plano. Não como palco ideológico, mas como reserva estratégica do século XXI.
A Argentina de Javier Milei surge aqui como peça-chave. Um aliado ideológico, mas sobretudo um parceiro disposto a alinhar economicamente com Washington. A liberalização agressiva, o afastamento da China, a reorientação estratégica do país não são apenas escolhas internas. São parte de uma reconfiguração regional.
O Chile, independentemente da cor política do seu presidente, é outro ponto sensível. Cobre, lítio, acesso ao Pacífico. A Bolívia, com as suas reservas de lítio, é talvez o prémio mais cobiçado de todos. Nenhum destes países é indiferente nesta nova fase. Nenhum está fora do radar.
A Colômbia, aqui, não é vítima ainda. É risco. Um risco latente. Pela sua posição geográfica. Pela sua importância logística. Pela sua relação ambígua com Washington. Se a lógica aplicada à Venezuela for bem-sucedida, nada garante que não possa ser replicada noutros contextos, com outros pretextos.
É por isso que este momento é tão perigoso. Porque normaliza o impensável. Se a captura de um chefe de Estado deixa de chocar, tudo passa a ser possível.
A comparação com Taiwan ajuda a perceber os limites desta estratégia. Taiwan não é vulnerável da mesma forma. Está protegida por alianças militares formais, presença americana efectiva e um custo de escalada que Pequim não controla. Uma invasão de Taiwan seria guerra entre grandes potências. A destruição da própria indústria de semicondutores que a China pretende controlar. Por isso, Pequim não ataca. Pressiona. Cerca. Desgasta.
Trump faz o inverso. Ataca onde o risco é menor. Onde a resposta é fragmentada. Onde o custo político é reduzido. A Venezuela não tem alianças militares que a defendam. A América Latina não tem um sistema de segurança colectivo funcional. A Europa observa, mas não intervém. O cálculo é frio. E, do ponto de vista americano, racional.
A Groenlândia encaixa na mesma matriz. Recursos minerais críticos. Posição estratégica no Árctico. Antecipação das novas rotas comerciais. Não é excentricidade. É planeamento.
O que estamos a assistir não é ao regresso de um imperialismo clássico. É algo mais perigoso. Um imperialismo económico sem narrativa moral, sem preocupação institucional, sem limites autoimpostos. Um poder que age porque pode. E porque acredita que, se não agir agora, perderá a corrida. A captura de Maduro não encerra um ciclo. Abre-o. A pergunta já não é se outros países podem ser pressionados, desestabilizados ou controlados. A pergunta é quando. E com que grau de resistência.
A guerra já começou. Só ainda não nos habituámos a chamar-lhe pelo nome.



