Ver antigos edifícios e infraestruturas industriais renascerem no coração das cidades não deve ser entendido apenas como um exercício de valorização estética. Estamos, isso sim, perante uma transformação com uma dimensão muito mais profunda e estratégica.
Por um lado, porque permite reinventar territórios, reaproximar comunidades e repensar a forma como queremos viver nas próximas décadas. Por outro, porque, ao devolver vida a espaços emblemáticos, abrimos a possibilidade de resgatar lugares que voltam a assumir um papel central nas cidades contemporâneas, como centros históricos, frentes de água ou antigas zonas operárias onde, em tempos, as fábricas moldaram a geografia urbana e social.
Por isso, considerar a regeneração urbana como uma responsabilidade apenas do Estado significa limitar o alcance das soluções. O futuro das cidades dependerá certamente de políticas públicas inteligentes, mas também da capacidade de envolver parceiros privados com visão de longo prazo e compromisso real com o impacto coletivo das suas intervenções. Essa colaboração, para ser legítima, tem de assentar em regras claras: qualidade do desenho urbano, criação de valor para a comunidade, transparência e compromisso com metas ambientais e sociais.
O que vemos noutras grandes cidades do mundo confirma esta visão: quando antigas infraestruturas industriais são regeneradas com propósito, planeamento e visão, transformam-se em novos centros de inovação, criatividade, vida urbana e desenvolvimento económico. Basta olhar para projetos como o High Line, em Nova Iorque, ou a renovação de King’s Cross, em Londres, onde antigas estruturas industriais deram origem a novos polos urbanos vibrantes e cheios de vida. É isso que distingue cidades que apenas “reabilitam” de cidades que verdadeiramente “se reinventam”.
Se queremos cidades mais inteligentes, sustentáveis e inclusivas, precisamos de projetos que demonstrem que regenerar é plenamente compatível com inovação e com identidade urbana. Projetos como o Spark, em Matosinhos, são prova disso. Este empreendimento nasce da transformação da antiga fábrica da Lactogal num lugar que acolhe empresas e inovação, mas que, ao mesmo tempo, inspira pertença e reforça a identidade urbana. Dá vida nova a um gigante adormecido que marcou a história industrial da região e, ao convertê-lo num espaço contemporâneo que integra escritórios flexíveis, comércio e serviços, cria um novo polo urbano onde pessoas, ideias e atividade económica coexistem com o espaço público e a natureza.
Esta visão concretiza-se num projeto fluido e dinâmico, onde mobilidade, sustentabilidade e qualidade de vida se cruzam num ambiente capaz de atrair talento e novas dinâmicas económicas para a Área Metropolitana do Porto. Mais do que um investimento imobiliário, o Spark liga empresas, arte e inovação. Este projeto conta já com uma obra de Bordalo II, a Girafa, e um mural do Colectivo Rua, e será reforçado com bicicletas e veículos elétricos partilhados, integrados na plataforma piloto X4Us (CEiiA). Trata-se de uma solução que permite partilhar viagens, gerir a utilização em tempo real e medir as emissões de CO₂ evitadas, convertendo-as em créditos ecológicos associados a serviços ou benefícios.
Regenerar é muito mais do que reabilitar. É assumir que o passado pode ser o espaço mais fértil para projetar o futuro urbano. Importa, por isso, sermos capazes de o fazer com criatividade, visão, flexibilidade e, sobretudo, coragem para reinventar o que julgávamos encerrado na memória das cidades.


