O que têm em comum André Villas-Boas e Pedro Passos Coelho? À primeira vista, quase nada. Um pertence ao mundo do futebol, onde a emoção se confunde com identidade; o outro atravessou o espaço ingrato da política, onde a racionalidade é frequentemente punida e a memória é curta. No entanto, André Villas-Boas e Pedro Passos Coelho têm em comum algo raro e cada vez mais incómodo no espaço público: são pessoas sérias, competentes, tecnicamente qualificadas e profundamente comprometidas com aquilo que lideraram — André com o clube que ama, Pedro com o país que nunca tratou como instrumento.
Ambos herdaram situações de declínio. Villas-Boas recebeu um FC Porto fragilizado financeiramente, esgotado institucionalmente e já distante do seu próprio ADN competitivo. Um clube habituado a ganhar, mas preso a práticas antigas, a equilíbrios artificiais e a uma erosão silenciosa da sua credibilidade interna e externa. Passos Coelho herdou um país à beira da bancarrota, intervencionado, sem acesso aos mercados, com um Estado inchado, ineficiente e incapaz de financiar as suas próprias promessas.
Nenhum deles herdou margem de conforto. Herdaram problemas estruturais. E, mais importante, ambos compreenderam que liderar nessas circunstâncias exigia algo que hoje parece quase radical: dizer a verdade, assumir limites e recusar atalhos.
No futebol, por mais estranho, excessivo e por vezes grotesco que seja o seu universo, existe ainda um princípio básico de concorrência: ganha quem é melhor, perde quem falha, cai quem não acompanha. Mesmo num contexto adverso, mesmo quando o FC Porto historicamente sofre do “jeitinho” a favor do centralismo, de decisões enviesadas e de um sistema que raramente lhe é neutro, a competição existe. É imperfeita, é desigual, mas existe. E é isso que permite que a competência, ainda que tardiamente, seja reconhecida.
Na política, esse princípio desaparece. A concorrência não se faz pela qualidade das decisões, mas pela eficácia da narrativa. Não vence quem governa melhor, vence quem comunica melhor. Não sobe quem é mais competente, sobe quem incomoda menos. As pessoas sérias, preparadas e qualificadas tornam-se perigosas porque expõem a fragilidade dos discursos fáceis. E, por isso, são frequentemente empurradas para fora do sistema.
Villas-Boas chegou ao FC Porto não como um gestor oportunista, mas como alguém que conhece profundamente o clube, a sua história, identidade e exigência. Não prometeu vitórias imediatas nem salvadores messiânicos. Prometeu rigor, transparência, sustentabilidade e um projeto de médio prazo. Fez o que raramente se faz: colocou o clube acima do aplauso momentâneo.
Passos Coelho fez o mesmo na política. Governou sabendo que seria impopular, sabendo que o custo eleitoral seria elevado, sabendo que a memória coletiva tenderia a ser injusta. Mas governou com um sentido de responsabilidade raríssimo: nunca tratou o país como um palco, nunca confundiu liderança com sedução, nunca vendeu ilusões que sabia não poder cumprir. Amou o país o suficiente para não lhe mentir.
Nenhum deles desistiu perante as adversidades. Talvez o que André e Pedro tenham verdadeiramente em comum seja isto: num tempo dominado pelo ruído, pela facilidade e pela política do curto prazo, ambos entenderam que liderar é aceitar o custo de decisões certas quando elas são impopulares. No futebol, isso acaba por render reconhecimento tardio. Na política portuguesa, ser sério nunca rende nada.
Mas a história — essa — não responde a sondagens. Responde a factos.


