É só uma moeda, um pouco maior que aquelas que servem para pagar um café: “a moeda mede 6,6 cm de diâmetro, pesa 196 gramas e é cunhada em ouro. Na sua face, um retrato de Alfred Nobel e, em seu verso, três homens nus abraçados pelos ombros uns dos outros em sinal de fraternidade. Um desenho inalterado há 120 anos”. É só uma descrição objetiva da moeda, mas, com ela, o Centro Nobel da Paz quer chamar a atenção para a sua oposição ao facto de a mais recente laureada com o Nobel da Paz, a venezuelana María Corina Machado, a ter oferecido a outra pessoa qualquer. Essa outra pessoa qualquer é Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, concorrente ao mesmo prémio por iniciativa do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, mas que o Comité desconsiderou como vencedor.
Agora, a medalha, que não é mais que um objeto que pesa apenas 196 gramas, está nas mãos de Donald Trump, para mais tarde seguir para uma prateleira de um dos salões irrevogavelmente dourados da sua residência de Mar-a-Lago, ou talvez para o museu da presidência.
“Mas uma verdade permanece. Como afirma o Comité Norueguês do Nobel: “Uma vez anunciado, o Prémio Nobel não pode ser revogado, partilhado ou transferido para terceiros. A decisão é final e irrevogável”, escreve o Centro, identificando para a posteridade a pertença da atribuição a Carina Machado e não a Donald Trump, por muito que o presidente dos EUA possa agora exibir o troféu.
Não é a primeira vez que sucede uma transferência de dono: “sabia que algumas medalhas do Prémio Nobel da Paz foram transferidas após a premiação? Um caso bastante conhecido é o da medalha de Dmitry Muratov, que foi leiloada por mais de 100 milhões de dólares para ajudar refugiados da guerra na Ucrânia”. De facto, o jornalista russo Dmitry Muratov, vencedor do Nobel da Paz em 2021, leiloou a sua medalha em junho de 2022, arrecadando mais de 100 milhões de dólares, que doou a instituições que tomam conta de crianças refugiadas da guerra na Ucrânia. Não consta que o Comité ou o Centro do Nobel – por muito que despromovam qualquer tipo de mercantilismo que envolva a moeda – se tenha exasperado com o leilão.
Mas, desta vez exasperou-se, uma vez que a oferta parece responder a um intuito político: a ‘compra’ da presidência da Venezuela. Quando Donald Trump aprisionou o ex-presidente Nicolás Maduro, os venezuelanos e o resto do mundo esperavam que o presidente dos EUA entronizasse Corina Machado como presidente – interina, permanente, remota, por subscrição, por zoom. Qualquer coisa. Mas não foi isso que aconteceu. E a oferta da medalha por parte de Corina Machado – que já antes tinha afirmado ser sua convicção que Trump merecia a partilha – não pode ser lida de outra forma que não seja a tentativa de convencer o presidente dos EUA a contemplar a hipótese de lhe atribuir um lugar que Machado considera, por qualquer razão, seu. Mas não, os venezuelanos nunca se pronunciaram sobre o assunto, por muito que seja claro que o candidato Edmundo González concorreu em seu nome.
“Uma medalha pode mudar de dono, mas o título de laureado com o Pémio Nobel da Paz não”, especifica o Centro. Só ficou por saber-se se Corina Machado também entregou a Donalld Trump o cheque de um milhão de dólares que costuma ‘embrulhar’ a pequena medalha de 6,6 cm de diâmetro e 196 gramas de peso – o equivalente a 26 moedas de um euro.
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