A noite eleitoral fica marcada por um conjunto de discursos que merecem reflexão, porque podem indiciar o que nos espera.

O discurso de Luís Montenegro foi a expressão de que para o PSD o resultado conseguido por Marques Mendes foi um desastre que o Partido está a sentir muita dificuldade em digerir. Seria de esperar que Montenegro, como o fez, tivesse a elegância e decência de partilhar este mau resultado, apesar de a candidatura se ter declarado formalmente independente do Partido. Mas Montenegro não soube, ou não quis, parar aí, e quis partilhar também a postura de Marques Mendes de não dar indicação de voto para a segunda volta. E avançou para uma declaração com conteúdo muito mais profundo, dizendo que não daria essa indicação de voto porque “o espaço do PSD” não estará presente na segunda volta e que o PSD tinha sido escolhido para governar.

Ora, essa posição é admissível ao candidato, porque os votos que lhe foram dados não lhe pertenciam, mas ao chefe do Partido, e ao primeiro-ministro, é difícil de justificar porque assume que como nenhum dos dois candidatos é militante ou próximo do PSD, o resultado lhe será indiferente. Tendo em atenção a personalidade, o perfil, as declarações e o posicionamento político-ideológico de um ou outro dos candidatos, esta posição é um erro grave. Montenegro não devia ter tentado afastar-se da questão como se ela não existisse, porque a sua liberdade de manobra para governar será manifestamente diferente.

O impacto da declaração de Montenegro é agravado pelo facto de ter sido dita já depois de Ventura, eufórico, ter anunciado que os eleitores lhe tinham dado “a liderança da direita”, espaço muito mais alargado onde inclui automaticamente o próprio PSD. Montenegro não soube ouvir este discurso e não se preparou para os efeitos dele, acabando por deixar aos militantes e simpatizantes do PSD a tarefa de decidirem entre Ventura e Seguro, ou de não decidirem. Não o devia ter feito, porque as coisas não são iguais, e a Pilatos também o lavar de mãos não correu bem.

Para Ventura, a Presidência deixou de estar no rol dos seus objectivos. A natureza programática do discurso que fez ao final da noite, que teve as habituais declarações dividindo os Portugueses entre “nós” e os “outros”, imputando todos os defeitos e pecados imaginários aos seus adversários, carregadas de ódio por tudo o que seja diferente ou que “cheire” a “esquerda”, adaptam-se ao seu programa de Governo, mas não são de modo nenhum um guia de actuação para Belém. Ou seja, Ventura transformou imediatamente esta eleição noutra, onde o seu adversário é Montenegro, ou quem lhe suceda.

Cotrim optou por afirmar o seu enorme ego, dizendo que o resultado da primeira volta conduziu a uma “péssima escolha”, cuja responsabilidade atirou para as (esta noite especialmente largas) costas de Montenegro por insistir no apoio a Marques Mendes. Mas não explicou porque deveria Montenegro ter apoiado a sua própria candidatura, salvo se para evitar a eleição de Seguro. Assume, no entanto, que o cenário actual lhe é indiferente (“depois de mim o dilúvio”, diria Luis XIV) e opta também pelo lavar de mãos.

Finalmente, Seguro fez um típico discurso tranquilo de vencedor que percebe que a Presidência é um ponto de convergência de vontades e energias e não de divisão, um fomento de estabilidade e diálogo e não de conflito. Foi o discurso certo e pacificador no final de uma noite algo emotiva. Espero que facilite a escolha no dia 8.